GRUTA DA CONTENDA (+17m,-79m)


Enquadramento

Fig.1-Maçico Calcário Estremenho

A gruta da Contenda desenvolve-se no bordo Sul do planalto de São Mamede, Portugal. O planalto de São Mamede é uma das unidades geomorfológicas, do maior e mais importante maciço cársico português, o Maciço Calcário Estremenho, (Fig. 1) definido por Fernandes Martins (1949). A entrada da gruta está localizada no limite Norte do Polje de Minde (Fig. 2, ao longo do qual se encontram onde várias nascentes cársicas. A Contenda é uma dessas nascentes, possivelmente uma exsurgência episódica (neste caso funciona como nascente nas alturas de maior precipitação), de acordo com a classificação de Bögli, 1980.

Fig.2-Esboço corográfico

A boca da gruta da Contenda fica situada próxima de uma escarpa, que   delimita a Norte o polje de Minde,  em contraposição com a Costa de Minde , que segundo Fernandes Martins, 1949, delimita o mesmo polje a Sul. Esta escarpa, de aspecto muito mais modesto do que a sua  vizinha, apresenta  desnível que ronda os 10m, relativamente próximo da boca da Contenda,  e tem uma orientação grosseira NO-SE.

Outras exurgências existentes no polje de Minde e já referidas por Fernandes Martins, 1949 , são o  Regatinho, o Olho de Mira e o Poio (Gruta da Pena), todas situadas próximas da escarpa acima referida. A gruta da Contenda encontra-se total ou pelo menos, parcialmente inundada durante grande parte do ano, tornando o trabalho de campo, na maior parte da gruta, só possível por um período de 3-4 meses.

A gruta da Contenda encontra-se próximo da gruta de Moinhos Velhos. Esta  é a segunda maior gruta em desenvolvimento e a segunda mais profunda de Portugal. A ligação entre Moinhos Velhos e a Contenda foi provada por traçagem em 1986 (Almeida et all, 1995). A traçagem realizada na gruta de Moinhos Velhos revelou uma velocidade média da água de 16 m/h para uma distância de viagem de 800 metros até à gruta Contenda, sendo a direcção do fluxo, encontrado neste sector, de norte para sul. A gruta da Contenda é, segundo o relatório Ramsar, uma exurgência do tipo “trop plein” ou de extravasamento do Sistema de Moinhos Velhos.

Até à presente data nunca foi conseguida, tanto quanto seja do nosso conhecimento, a ligação física entre a gruta da Contenda e Moinhos Velhos. O sistema de grutas composto pelas grutas da Contenda, de Moinhos Velhos e Pena (Poio), esta última já fisicamente ligada à gruta de Moinhos Velhos, é conhecido  como o Sistema Moinhos Velhos-Pena-Contenda.

Breve resenha histórica

Fig.3- Topografia da Contenda, da autoria de C.R.G.

Antes de referir em mais pormenor os trabalhos realizados nesta cavidade é justo que se refira quem durante décadas foi  responsável pelos trabalhos realizados nesta gruta. A Sociedade Portuguesa de Espeleologia é a associação que  segundo C. Thomas, 1985, tem vindo a trabalhar nesta gruta desde os anos 50, até à actualidade e a quem se deve a maior parte das descobertas realizadas nesta gruta, uma galeria desta gruta tem inclusive o nome desta associação. Em 1959 o Cave Research Group da Universidade de Londres fez uma expedição a o sistema Moinhos Velhos-Pena-Contenda. A topografia da gruta foi publicada em 1959 num documento intitulado: ” The caves of the Serra de Aire massif, Central Portugal “, tendo sido posteriormente republicada no livro de C. Thomas, 1985, “Grottes et Algares du Portugal”Ainda  C. Thomas terá realizado trabalhos nesta gruta uma vez que republica a topografia da autoria do C.R.G. (Cave Research Group) e faz uma breve descrição da gruta. Obviamente que ao longo dos anos outros grupos poderão ou terão trabalhado nesta gruta. Se for esse caso por favor refiram-no nos Comentários de modo a podermos inclui-los nesta breve resenha histórica.

Trabalhos realizados

Durante oito  anos (2007 a 2015), um grupo de associações de espeleologia juntou esforços para realizar vários trabalhos na gruta, a saber: levantamento topográfico, levantamento geológico, apoio à amostragem biológica, desobstruções diversas e três espeleomergulhos.

Os trabalhos foram realizados por membros das seguintes associações de espeleologia, aqui enunciadas por ordem alfabética: AES – Associação de espeleólogos de Sintra, AESDA – Associação de Estudos Subterrâneos e Defesa do Ambiente, ARCM-Alto Relevo Clube de Montanhismo, CEAE-LPN – Centro de Actividade Especiais da Liga Portuguesa de Protecção da Natureza, ECTV – Espeleoclube de Torres Vedras, GEM – Grupo de Espeleologia e Montanhismo, GEMA Grupo de Espeleologia e Montanhismo de Aveiro,  NEC – Núcleo de Espeleologia de Condeixa, NEL – Núcleo de Espeleologia de Leiria, NEALC – Núcleo de Espeleologia de Alcobaça, NEUA – Núcleo de Espeleologia da Associação Académica da Universidade de Aveiro, SAGA- Sociedade dos Amigos das Grutas e Algares e SpeleoKlub Warszawski

Levantamento topográfico e espeleometria

Quase toda a extensão conhecida da gruta foi topografada. Os dados espeleométricos atualizados são: extensão total: 1792m, profundidade: 96m, ponto mais alto:+17m, ponto mais profundo: -79m. Estes dados são dados em relação à boca da gruta.. As medições de profundidade são referidas em relação à actual entrada da gruta.

s dados espeleométricos atualizados são: extensão total: 1792m, profundidade: 96m, ponto mais alto:+17m, ponto mais profundo: -79m. Estes dados são dados em relação à boca da gruta.

A topografia da gruta é apresentada na Fig. 4.

Fig. 5 – Parte de uma das equipas

A disposição das galerias da gruta encaixa-se na categoria de “curvilinear branchwork” segundo a classificação de Palmer, 2003. A gruta tem duas entradas. Uma das entradas é um pequeno algar que hoje se encontra obstruído, a outra é a exurgência. O acesso à gruta só é actualmente possível por esta última entrada.

A gruta é composta por uma galeria principal que se desenvolve grosseiramente, primeiro para sudeste e depois para norte. Esta galeria encontra a cerca de 270m da entrada uma galeria afluente (conhecida como galeria do sifão lateral), que se desenvolve para sul. A galeria afluente apresenta antes de uma bifurcação, já próximo da sua zona terminal, um pequeno canhão, a partir da bifurcação tem-se acesso a duas galerias, terminando ambas em sifões. A galeria afluente tem cerca de 130m de comprimento. A galeria principal, a cerca de 550m da entrada da gruta, entra na zona dos poços.

Existem dois conjuntos de poços. Um dos conjuntos, com cerca de 60m de profundidade, acaba num poço , cujo fundo está coberto por argila (provavelmente gerada por sedimentação de águas estagnadas nos poços) e termina num sumidouro. O outro conjunto de poços, também com cerca de 60m de profundidade, permite o acesso a duas galerias inferiores.

Fig.6 – Exurgência cavernosa ou “cave spring” na galeria do rio

Uma dessas galerias é chamada “galeria do Rio”. O nome é devido ao rio subterrâneo lá encontrado. Esta galeria tem uma extensão conhecida de sensivelmente 100m. o acesso à galeria do Rio  faz-se por um estreito poço com cerca de 10m, que sai sobre uma galeria de direcção Este-Oeste onde circula um afluente do rio.
A galeria do rio desenvolve-se também em direcção grosseira Norte- Sul, tendo uma extensão conhecida da ordem dos 150m,  o acesso à galeria do Rio  faz-se por um estreito poço com cerca de 10m, que sai sobre uma galeria de direcção Este-Oeste onde circula um afluente do rio. A galeria do rio é de longe a mais fascinante e bela desta gruta sendo que podemos encontrar inclusive alguns exemplares do que Bogli,1980 designa de”cave springs”, que se poderia traduzir por nascentes cavernosas. A galeria do Rio das vezes que foi por nós visitada encontrava-se sempre com água, sendo no entanto visível a redução do nível de água com o avançar do Verão.

Fig. 7- Outra “cave spring”

A outra galeria é conhecida por “galeria SPE 66” e desenvolve-se por cerca de 230m para Norte, cerca de 7m acima do nível da galeria do Rio.  O nome  desta galeria (SPE66) deriva, do ano em que esta galeria foi descoberta pela associação atrás referida. Esta galeria termina num poço com água. A água encontrada, durante o Verão, no rio subterrâneo, nos sifões da galeria afluente (sifão lateral) e no poço terminal da galeria SPE66, deverá todo corresponder ao nível freático regional.

Levantamento geológico e geomorfológico

Enquadramento

Fig.8-Estrato da carta geológica 27-A com a localização da gruta da Contenda

A gruta desenvolve-se, de acordo com a folha 27-A-Vila Nova de Ourém da Carta geológica na escala 1:50.000, em calcários do Batoniano (Dogger), como se pode ver na Figura 7. O calcário pertence à formação de Calcários Mícritos da Serra de Aire, composta principalmente por calcário micrítico. Em relação à estrutura geológica, e com base numa análise expedita do mapa geológico acima mencionado, a gruta desenvolve-se no flanco de uma dobra regional. Este flanco pode ser considerado localmente como um monoclinal com uma atitude aproximada de NW-SE/20S.

Fig.9 -Aspecto arredondado das paredes (típico de corrosão em regime freático)

A entrada da gruta fica perto do bordo Norte do Polje de Minde. Este Polje, de acordo com Almeida et all (1995), tem de cerca de 4 km de comprimento por 2 km de largura e o seu fundo tem uma altitude média de 200 m. Existem várias nascentes temporárias, todas elas associadas a grutas importantes (Almeida et all, 1995, depois de Crispim, 1987), localizadas ao longo dos bordos NE e NW do Polje. Periodicamente, os sumidouros localizados perto da vila de Minde são insuficientes para drenar o Polje e este transforma-se num lago temporário. O bordo Norte do Polje de Minde corresponde a uma falha (com direcção NW-SE), sendo que as cavidades, cujas entradas estão localizadas perto do extremo norte do Polje de Minde, estão assim localizadas próximo de uma falha. Esta falha produz um efeito de barreira, permitindo o contacto lateral entre calcários do Dogger, com um elevado potencial de carsificação, e os calcários do Malm de menor permeabilidade. Esta falha age provavelmente como uma barreira ao fluxo de água na direcção perpendicular à falha, mas também como uma linha de fluxo preferencial da água paralelo à falha. Crispim, 1995 reconhece a importância desta falha, colocando em contacto rochas de permeabilidade muito diferentes, afirmando também que as zonas de emergência de águas estão localizadas ao longo dos contactos entre as rochas de permeabilidade diferentes.

Fig. 10 -Outra vista do aspecto arredondado das paredes

De facto embora as várias grutas, acima referidas, não estejam ainda completamente exploradas e a topografia da maioria delas esteja (como é hábito aliás) por publicar, é notório que uma série de grutas tipicamente consideradas como pertencentes a diferentes sistemas e muitas delas com orientações distintas da falha acima referida têm as suas bocas a escassas centenas de metros umas das outras e ao longo de uma estrutura que poderá ser propícia à condução de água, como tal a ligação entre algumas ou todas estas grutas/sistemas é uma possibilidade que enriquece o potencial espeleológico desta área crítica

Controlo estrutural

A gruta tem vários tipos de controlos estruturais. Numa primeira abordagem a galeria principal, parece ser controlada principalmente pelas superfícies de estratificação, em algumas zonas pela direcção das camadas e noutras áreas pela inclinação das mesmas. Os planos de estratificação medidos dentro da gruta, relataram valores entre N40W a N50W/20S para a direcção e inclinação das camadas. Este valor está de acordo com o acima mencionado para a atitude regional das camadas da área. Várias fracturas cruzam a galeria principal, tendo alguma influência no seu desenvolvimento. Na área onde a galeria principal e a afluente se encontram, uma fractura com uma atitude de N50W / vertical, controla o desenvolvimento das duas galerias. Fracturas com uma atitude aproximada de N30E/vertical também controlam outras partes da galeria principal.

O desenvolvimento da galeria afluente é controlado principalmente pela inclinação das camadas e nalgumas áreas por várias fracturas. Essas fracturas têm uma atitude N40W a N50W/vertical, N10W/vertical e E-W / vertical.

O desenvolvimento na zona dos poços é controlado principalmente por fracturas com uma direcção variando de N50W a N60W.

Fig. 11-Controlo estrutural da galeria por uma fractura, note-se a inclinação da fractura.

A galeria SPE66 é estruturalmente controlada principalmente por uma família de fracturas de atitude aproximada N10W/80E, embora algumas pequenas partes da galeria sejam controladas por fracturas de uma outra família de atitude N60E a N80E/Vertical. As áreas controladas por esta última família de fracturas fazem a ligação com as áreas controladas pelas fracturas da família N-10W/80E.

Padrões de circulação de água

Todas as galerias topografadas da gruta podem ser consideradas como fazendo parte da zona vadosa activa, de acordo com a definição de Bögli, 1980. Quanto à espessura da zona vadosa activa no Polje de Minde, o relatório Ramsar refere-se a 100m de variação do nível freático nessa área. Ainda de acordo com Crispim, 1987, na gruta de Moinhos Velhos, a zona de oscilação temporária do nível freático tem uma variação máxima de 80m. Como se refere na introdução, a gruta da Contenda é considerada uma exurgência de extravasamento de Moinhos Velhos. Segundo a interpretação de que toda a gruta pertence à zona vadosa activa, o valor da profundidade da gruta (cerca de 70m a contar da cota da actual entrada desta) deverá corresponder à espessura da zona vadosa activa. Este valor é bastante próximo ao mencionado na gruta de Moinhos Velhos.

As galerias da gruta são de origem freática. A única excepção é a zona com morfologia em canhão encontrado em parte da galeria afluente, que aparenta ter sido formado sob regime vadoso, que terá sucedido, ao regime freático inicial. Com base nas vagas de erosão e nos sedimentos encontrados na galeria, a água deve fluir da parte mais profunda da gruta (galeria SPE66, galeria do rio, galeria afluente) para a galeria principal, até atingir a entrada da gruta.

Fig 12-Aspecto da galeria junto da entrada

Quanto ao meandro em canhão na galeria afluente, as vagas de erosão, da parte superior da sua secção transversal, indicam o fluxo de água proveniente dos sifões para a galeria principal, embora as vagas de erosão da parte inferior da mesma secção indiquem que o fluxo de água faz o caminho inverso, da galeria principal para os sifões. Apresenta-se de seguida uma proposta de génese desta morfologia:

a) Formação da galeria afluente (sob um regime freático) por água que circulava de galerias desconhecidas, situadas abaixo dos sifões, em direcção à galeria principal. As vagas de erosão na parte superior da secção transversal (apontando no sentido da galeria principal) foram inicialmente formadas durante este período.

Fig. 13 -O canhão da galeria afluente encontra-se na parte inferior da figura.

b) Após um determinado ponto do seu desenvolvimento, a gruta começou a actuar não apenas como exsurgência, mas também como um receptor das águas vindas da superfície. A água penetra na gruta através de áreas de recarga difusas ou concentradas situadas à superfície, circulando ao longo de algumas galerias de pequeno diâmetro, que terminam na galeria afluente. A água proveniente do rebaixamento do lago temporário do Polje, quando a gruta actua como um sumidouro, deverá também actuar neste processo. A água circula ao longo da galeria afluente, até atingir os sifões terminais. Esta circulação dá-se em regime vadoso, e terá escavado o meandro em canhão e produzido as vagas de erosão na zona inferior da secção transversal (apontando no sentido dos sifões).

c) Actualmente, a água circula a partir dos sifões para a galeria principal somente quando a gruta se enche de água, quando o nível freático sobe. Isto acontece no Inverno. Esta circulação em regime freático deverá continuar a ocorrer. O restante tempo, que é provavelmente a maior parte do ano hidrológico, a galeria afluente recebe água que circula num regime vadoso e escava o meandro em canhão.

Fig. 14 -Repare-se na secção circular da galeria ao fundo

Considerando a morfologia da gruta, a circulação da água acima descrita, e o facto da gruta da Contenda ser uma exsurgência do tipo “trop plein”, pode-se considerar que o período de circulação das águas subterrâneas é provavelmente limitado na maior parte da gruta. As zonas onde deverá haver circulação permanente são a “Galeria do rio” (onde se observa a circulação das águas subterrâneas, mesmo no verão), e na(s) galeria(s) desconhecida(s) aonde a galeria afluente deve ligar. A Galeria SPE66 poderá também ter circulação durante uma parte significativa do ano.

A  posição ligeiramente elevada da galeria SPE 66 em relação à galeria do Rio permite-lhe ter, durante o estio, uma maior área emersa.

Espeleomergulhos na zona final da galeria SPE 66

Fig. 15 -Acesso do mergulhador ao poço final da galeria SPE 66,onde desçe em rappel até à água.

Conforme mencionado anteriormente a gruta da Contenda encontra-se bastante próxima da gruta de Moinhos Velhos. A parte terminal da galeria SPE 66 termina num poço com água. Este poço está a cerca de 100m (em linha recta) da gruta de Moinhos Velhos, de acordo com os levantamentos topográficos da SPE efectuados para a gruta de Moinhos Velhos (Crispim, 1987) e da gruta da Contenda. Os mergulhos foram realizados neste poço, que está aproximadamente a 850m da entrada da gruta. O percurso para chegar ao poço demora cerca de 3-4 horas de uma dura progressão, incluindo a passagem de alguns lagos. Tanto quanto sabemos, nunca havia sido realizado nenhum mergulho nesta gruta.

Fig.16 – Fotografia aérea com a implantação da gruta de Moinhos Velhos (vermelho) e Contenda (azul)

Três mergulhos foram realizados, o primeiro em 2008 e os restantes em 2009. Ambos foram realizados por Rui Pinheiro, com o apoio técnico de outros mergulhadores.

O mergulho de 2008 teve como  objectivo reconhecer o final do poço, e verificar se este tinha alguma ligação penetrável que permitisse a sua exploração. Foi descoberto que o poço terminal dá acesso a uma galeria submersa, mas as limitações técnicas não permitiram explorar então muito mais.

Os mergulhos de 2009 atingiram galerias inexploradas até então. O poço dá acesso a uma galeria inferior com a orientação aproximada Norte-Sul. A galeria continua para norte e depois para leste por cerca de 12m até atingir uma zona seca (à altura do mergulho, mas que em 2008 estaria certamente submersa), tendo-se constatado que a gruta continua, mas não sendo prosseguida a exploração por questões de segurança.

Fig. 17 – Espeleomergulhador no poço antes de iniciar o mergulho

Foi realizado um novo mergulho para Sul, a partir do poço de acesso à água, a galeria (com maiores dimensões do que a do lado Norte) continua para SE, sempre submersa até terminar algumas dezenas de metros à frente. Embora a galeria termine neste nível (8m de profundidade), do chão desta saem três poços, com uma profundidade estimada em 9m. Esses poços continuam para a zona freática profunda, e não foram explorados em virtude de o mergulhador se encontrar desprovido de sistema de controlo de flutuabilidade. Com este mergulho a gruta da Contenda está agora a cerca de 90m (em linha recta) da gruta de Moinhos Velhos – Pena.
A ligação, embora pareça iminente, é difícil já que há que vencer uma zona inundada.

Espeleomergulhos na galeria do rio – Mergulhos de 2011

Com o propósito de verificar, em mergulho, as continuações dos sifões Este e Oeste, da galeria do Rio foram realizados 2 mergulhos em Setembro de 2011.

A primeira imersão realizou-se no sifão Este, ao qual se acede após progressão de cerca de 100m em galeria tipicamente de conduta forçada, que se encontrava parcialmente inundada à data do mergulho, com fundo coberto por argila. Iniciada a progressão subaquática, e após avançar 10m numa galeria de 2,5 por 3m de altura, o mergulhador viu-se novamente em galeria semi-inundada com zona aérea de 0,5m de altura, prolongando-se numa extensão de 25m. Neste ponto verifica-se um rebaixamento do tecto até ao plano de água, após o que se inicia um novo sifão. A partir deste ponto a visibilidade melhora progressivamente atingindo 2m, situação que acompanha a alteração no tipo de fundo, passando progressivamente para fundo de areia. A cerca de 60m de penetração total e com uma profundidade acima dos 7, tendo agora exclusivamente fundo arenoso, a visibilidade passa a ser determinada pelo limite da luz.
Aos 85m de progressão, a uma profundidade de 9m e numa galeria de secção aproximada de 1,5 por 1,5 m, aproximando-se os terços na gestão de gás, o mergulhador voltou para trás.

Fig.18- Locais do espeleomergulho de 2011 implantados numa maquete  virtual da gruta da Contenda

O sifão Oeste da galeria do Rio foi também mergulhado. Neste sifão a galeria desenvolve-se numa secção de menores dimensões com fundo argiloso nos primeiros 10m, passando depois para fundo de areia. A progressão é feita numa galeria de secção uniforme sem grandes oscilações de direcção.
A cerca de 45m de penetração total, a galeria abre numa pequena sala a partir da qual muda 90 graus de direcção. Tendo atingido os 50m de extensão, a uma profundidade acima dos 8m e constatando que a galeria continua o mergulhador voltou para trás.

Em nenhum dos mergulhos foram localizadas galerias secundárias.

Mergulhos de 2013

Depois de um interregno de um ano, o colectivo de espeleólogos que desde 2007 trabalha activamente nesta gruta voltou à carga. Desta vez com o apoio institucional das seguintes associações (por ordem alfabética):ARCM, GEM, NEL e NEUA e com o trabalho de um vasto número de espeleólogos de diferentes associações, foi possível atingir os objectivos pretendidos. Os trabalhos incidiram na realização de mergulhos na galeria do Rio e na topografia de uma galeria lateral da galeria do Rio, descoberta há dois anos.

As imersões na galeria do Rio foram realizados por António Mendes do NEUA. O primeiro mergulho pretendia colocar fio de ariadne no ramo Oeste da galeria, mas as condições de má visibilidade impossibilitaram a realização dessa tarefa. O segundo mergulho foi realizado no ramo Este da galeria, com melhores condições de visibilidade, dado que corrente do rio aparentava ser no sentido Este-Oeste, o que permitiu instalar cerca de 65m de fio de ariadne, 15 em zona desconhecida. Os outros 50m da galeria haviam já sido mergulhados em 2012 pelo mesmo mergulhador, sem deixar fio de ariadne.

A topografia da galeria lateral, dificultada pela presença abundante de argila, revelou uma galeria com cerca de 20m de comprimento, bastante inclinada, e que termina em duas chaminés (uma delas penetrável por um espeleólogo de pequenas dimensões corporais), que se situam por baixo da base da zona dos poços da gruta.

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Fig.19- António Mendes a preparar-se para o mergulho

A campanha de 2015

 A campanha da Contenda de 2015 prolongou-se mais que o período habitual das suas antecessoras. O baixo nível de água registado no Verão de 2015, devido à situação de seca que se fez sentir, foi aproveitado para tentar aceder a zonas geralmente inundadas da gruta. Assim sendo os trabalhos prolongaram-se para lá do Verão tendo entrada já Outono adentro.

Os trabalhos na galeria do Rio permitiram topografar mais cerca de 26m da zona seminundada desta galeria, aproveitando o baixo nível de água que se fez sentir durante o Verão. O troço agora topografado já havia sido mergulhado em 2011, mas não tinha sido então topografado. De notar o esforço da equipa de topografia que com a ajuda de alguns flutuadores e a custo de banhos gelados acrescentou mais algumas dezenas de metros à topografia da gruta.

Fig. 20 – O nivel da água na galeria do rio em 8/8/2015

Já na galeria SPE 66 cedo se percebeu que o baixo nível de água que ainda cedo no Verão se mediu no poço terminal  deixava antever a possibilidade de se aceder às zonas mergulhadas em 2009 e possivelmente mais além do término dessa exploração. Grande parte do Verão foi passada em peregrinação a este poço, medindo o nível da água e acompanhando a sua constante, embora irregular descida.

Fig.21. O nível da água no poço terminal da galeria SPE 66 a 8/8/2015

A 3 de Outubro o nível de água no poço terminal da galeria SPE 66 havia baixado o suficiente para permitir a passagem para a zona mergulhada em 2009. A equipa constituída por Pedro Robalo, Pedro Sabino e Telmo Miguel, transpõe a passagem, com o nível da água a não facilitar a tarefa, a equipa atinge e ultrapassa o limite do mergulho de 2009 e depara com um sifão. O nível de água no sifão não atinge o teto e a equipa supera também este obstáculo, a gruta continua mais uns metros e termina num outro poço, preenchido com água, mas no qual se antevê a continuação submersa da galeria. A equipa topografou de imediato o novo troço. A zona terminal da galeria SPE 66 dirige-se de modo grosseiro para Norte e tem uma extensão de 43 metros. O novo poço foi atingindo na véspera de chuvas fortes que impediram a continuação das explorações. A gruta de Moinhos Velhos dista agora em linha recta cerca de 30m da Contenda. A passagem que permite o acesso do antigo poço terminal ao novo troço foi baptizado de passagem Rui Pinheiro 2009 em memória do espeleomergulhador que primeiro a transpôs em 2009 em mergulho.

Os trabalhos na galeria SPE 66 foram além da exploração do poço terminal. Foram também escaladas duas chaminés desta galeria, na esperança de encontrar um bypass ao poço terminal, porém as chaminés não apresentam continuações significativas. O nivelamento da galeria SPE 66 e a exploração da sua zona terminal permitiram concluir que o nível de água, que se observa no antigo poço terminal da galeria SPE 66, no novo poço terminal é de fato o nível freático.

Filme 1 : Filme da passagem do poço terminal da galeria SPE 66

Fig. 22 – A equipa que passou o poço terminal da galeria SPE 66

Fig.23 Poligonais da Contenda, da gruta de Moinhos Velhos e outras grutas do polje de Minde.

 

Fig. 23 – Macho de Trechus lunai Reboleira & Serrano, 2009

 

 Biologia

A amostragem biológica resultou também na descoberta de uma nova e rara espécie de escaravelho cavernícola: Trechus lunai Reboleira & Serrano, 2009.

Fica aqui um pequeno filme, realizado no inicio de Janeiro de 2010, em que se vê a gruta da Contenda em carga com a boca da gruta a funcionar como uma exurgência. Recorde-se que este é a única entrada da gruta e no Verão o nível da água encontra-se cerca de 70m mais abaixo.  O vídeo é da autoria do André Reis (CEAE), aproveitamos para a agradecer ao companheiro Paulo Campos (ARCM) a sua colocação on-line.

Cuidados a ter na exploração ou visita a esta gruta

Resta-nos referir que a gruta da Contenda requer alguns cuidados na sua exploração. A maior parte do ano a galeria principal só é visitável até cerca de 200m da entrada, normalmente neste local forma-se um sifão que só abre naturalmente no final da primavera; se esta não for muito chuvosa, e após o poço (na bifurcação com a galeira do sifão lateral )  existe um local onde por

Fig. 19 – Maquete virtual

vezes está um lago, que em caso de chuva recebe uma recarga muito rápida que bloqueia a passagem rapidamente.

Como tal em caso de previsões de chuva não se deve nunca visitar esta cavidade. Apesar de pela topografia a gruta parecer relativamente simples é um puro engano. Esta cavidade é bastante tortuosa com zonas de tecto relativamente baixo, constantes subidas e descidas com argila e água em muitos locais, talvez por estas razões ela ainda se encontre ainda em exploração…

Agradecimentos

Este trabalho só foi possível devido ao apoio e duro trabalho de campo dos seguintes espeleólogos: José Silva, Ildegardo Granjo, Luís Sobral, Margarida Jalles, Mário Matos, Miguel Lopes, Paulo Almeida, Paulo Alexandre, Ana Calambra, António Mendes, Pedro Robalo, João Paulo Janela, Alvaro Jalles, Rui Andrade, Paulo Rodrigues, Rui Francisco (Lóia) Rui Pinheiro, Pedro Pinto, André Reis, Beatriz Silva, Patrícia Silva, Celso Santos, Paulo Campos, Diana Campos, Luís Costa (Costinha), Vitor Amendoeira, Marta Borges, Mário Pereira, Vitor Toucinho, Ana Barros, Ulisses Lopes, Fortunato Videira, João Pinheiro, Costa Pereira, Luís Meira, Marco Costa, Flávio Lucas, Marco Dias, Pedro Sabino Koch, Sandra Lopes, Fátima Carvalho, Denise Fialho, Bruno Pais, Sofia Morais, Sofia Reboleira, Alexandre Leal, Andreia Monteiro (superfície), Beatriz Domingues, Florbela Silva, Hélio Frade, Iza Palygiewicz, João Paulo Lopes,  Marco Matias, Marco Messias,  Pedro Aguiar ,Rudi Lopes, Rute Agapito, Samuel Lopes, Telmo Miguel, Tiago Matias,  Élio Ferreira e Victor Lourenço.

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• Palmer, Arthur N., (2003) Speleogenesis in Carbonate rocks, In: Evolution of karst: from prekarst to cessation. Postojna-Ljubjana ZCR, 43-60. Also available at: http://speleogenesis.info

• Reboleira, A.S.P.S., Gonçalves, F. & Serrano, A. 2009. Two new species of cave-dwelling beetles Trechus Clairville of fulvus-group in Portugal. Deutsche Entomologische Zeitschrift, 56(1): 101–107.

• Rodrigues, M.L., Cunha, L., Ramos, C., Pereira, A.R., Teles, V., Dimuccio, L. (2007) “Glossário Ilustrado de Termos Cársicos”

• Rodrigues, P. Robalo, P., (2008) Gruta da Contenda. Web page: )

• Information Sheet on Ramsar Wetlands (RIS) , (2005), Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros

• “The caves of the Serra de Aire massif, Central Portugal.(December 1959), vol. 5(2) “Transactions of the cave research group”. Published by the Cave Research Group of Great Britain.

• Osborne, R. Amstrong L. (2003) – Halls and Narrows: Network caves in dipping limestone, examples from eastern Australia.

• Trudgil, Stephen,(1985). Limestone Geormorphlogy, Longman Group Limited, New York.

• Carta Militar de Portugal à escala 1/25000, folha 318 – Mira de Aire (Porto de Mós) Edição 3 –2004, Instituto Geográfico do Exército

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5 Respostas to “GRUTA DA CONTENDA (+17m,-79m)”

  1. Bom trabalho. Este é o rumo certo, muito trabalho de campo com resultados publicados. Pode ser que se influencie alguma da Espeleologia nacional que anda à deriva.

  2. Excelente trabalho. A espeleologia é isto mesmo. Uma visão abrangente, com trabalho desenvolvido em todas as vertentes tecno-científicas com a participação de uma expressiva comunidade espeleológica geograficamente muito representativa e com a elaboração e divulgação de informação de grande valia, cuja partilha engrandece os seus autores e dignifica a espeleologia.
    É sem dúvida um exemplo a ter em conta, em especial para os que estão a iniciar-se nestas andanças.
    Os meus sinceros parabéns e votos de continuidade a todos quanto participaram neste projecto e grande bem-haja aos seus mentores.
    Um abraço muito especial ao Paulo Rodrigues e a Pedro Robalo pela sua clara definição de objectivos do trabalho a realizar e tratamento posterior da informação.
    Parabéns, Parabéns, Parabéns
    Gabriel

  3. Muito bom. Excelente trabalho!

  4. Parabéns a todos os que contribuíram para este excelente trabalho.
    Beijos

  5. nice! gostei de ver e já divulguei.
    e este ano vamos lá ou não? eu quero molhar a minhoca! 🙂

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