Algares do cabeço dos Alecrineiros – Parte VII

•20 / 05 / 2017 • Deixe um Comentário

Ribeiro, José: 1,2; Lopes, Samuel: 1,4;Rodrigues, Paulo: 1,2,3

1)- – Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua Maria Veleda, 6, 7ª Esq, 2560-218, Amadora, Portugal 

(2)- Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares 

(3)- Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia 

(4) Wind -CAM- Centro de Actividades de Montanha, Rua Eduardo Mondlane, lj44, 2835-116 Banheira

Introdução

A Primavera está ai, dias radiosos com os Alecrineiros cheios de vida. De facto aqui ainda sentimos que estamos dentro do parque natural, até já fomos presenteados com o belo do Faisão macho, que só voou ao sentir a nossa proximidade e que belas cores transportou consigo, achamos até que foi um indicador de boa sorte. Mas a sorte procura-se e só se encontra com muito trabalho, fruto das varias prospeções que temos feito encontramos mais algares. Uns mais trabalhosos que outros, é bem verdade. Vamos variando nas nossas explorações para que consigamos periodicamente publicar os nossos trabalho

Partilhamos nesta publicação os algares Escondido, Alecrineiros 4 e 2 Bocas (Alecrineiros).

Algar Escondido

Figura 1 – Algar Escondido na altura da descoberta (Foto de Pedro Almeida – GEM).

Foi a excitação assim que encontramos o algar Escondido, era um pequeno buraco ali bem disfarçado à espera de ser descoberto. Aquilo é que foi, quais mineiros começamos um pouco depois a desobstrução que nos deu algum trabalho, mas estas coisas são mesmo assim. Depois de aberto e a exploração iniciada ouviu-se a palavra chave:

-Eh pá isto continua!!!!

Figura 2 – Algar Escondido, após desobstrução e inicio da exploração (Foto de Sandra Lopes – GEM).

 O algar tem de facto algum desenvolvimento e uma possibilidade de continuação, o seu nome deve-se ao facto de estar mesmo escondido.

Descrição:

A boca do algar é pequena e não chega a ter meio metro de diâmetro. Segue-se um pequeno poço de  4m, alargado na sua base,  zona de muita argila e vários blocos, por nós retirados. Tem-se acesso a uma pequena rampa de acentuada inclinação, permitindo chegar a uma pequena sala (se assim o podemos chamar), onde está a cabeceira de um poço de 7m. Abre-se uma diáclase no sentido NO-SE, a sua base é uma cascalheira com calhaus de varias dimensões e alguma argila, com inclinação, descendente no sentido SE. Aqui o algar tem a sua zona de maior dimensão, atingindo 2m de largura por 6m de altura. No topo da rampa da diaclase a NO, subindo uma rampa de argila com acentuada inclinação tem-se acesso a uma pequena sala, com muita argila e cascalheira, tendo poucas formas de reconstrução. Já a SE, no final da rampa encontra-se um pequeno poço de 3m, em forma de “tubo”, o qual da ligação a continuação da diaclase mas agora com dimensões muito reduzidas. No seu final, também no sentido NO-SE, deslumbra-se a continuação da diaclase mas muito estreita, tanto em profundidade como horizontalmente. Não se deteta nenhuma passagem de ar que seja significativa.

Figura 3 – Enquadramento dos algares Escondido, 2 Bocas (Alecrineiros) e Alecrineiros 4 (P20)

Geologia: 

O algar Escondido desenvolve-se segundo a Folha 27-C da Carta geológica de Portugal à escala 1/50000 na formação de Calcários micríticos da Serra de Aire, datada do Batoniano (Jurássico Médio). A gruta aparenta ser um “vadose shaft”. O controlo estrutural do desenvolvimento da gruta aparenta ser feito por descontinuidades de duas famílias de atitude aproximada NW-SE/subvertical e NE-SW/subvertical

Presente:

É sempre um prazer, explorar e alcançar pela primeira vez o desconhecido, aquele momento em que se deslumbra mais uma passagem e a curiosidade do que vira a seguir, foi assim a exploração do algar escondido. De momento demos por terminado ali o nosso trabalho. Existe a possibilidade de após desobstrução (identificada na topografia), se torne humanamente possível o acesso a novo tramo, mas como em tudo na vida há prioridades e pensamos que a partilha serve também para esse fim, o trabalho foi iniciado e partilhado, pois quem assim o entender pode continuar. A cavidade não é nossa propriedade.

Porém para nossa proteção e da própria cavidade temos de obrigatoriamente ter formação antes de praticar espeleologia.

Figura 4,5 – Planta e Perfil do algar Escondido.

Planta do algar Escondido em pdf para download

algar escondidoP

Perfil do algar Escondido em pdf para download

algar escondidos

Ficha de equipagem do algar Escondido em pdf para download

F.E.Algar Escondido

Fotos do algar Escondido (Fotos: Pedro Almeida, Sandra Lopes, Vitor Amendoeira – GEM).

Algar Alecrineiros 4

Este algar foi inicialmente explorado pelos nossos colegas franceses do SSAC (Societe Spéleo Archéologique de Caussade), que sempre que nos visitam partilham o seu trabalho para conhecimento de todos e para que estes possam ter continuidade. É este o caminho!!!

Figura 6 – Algar Alecrineiros 4 (Foto de Samuel Lopes – GEM/WIND).

Bom, o Alecrineiros 4 é identificado no relatório do SSAC (Expedition Planalto 2008) como P20. Chamou-nos a atenção o ponto de interrogação com ligeira corrente de ar no perfil do croqui de exploração efetuado na altura pelos nossos amigos. E claro no âmbito do nosso projeto, cabe a melhoria dos dados existentes da cavidade.

Descrição:

Entra-se no algar por uma fenda, que se desenvolve no sentido N-S, segue-se um patamar que não é mais que um bloco de grandes dimensões, ali entalado. Ai há duas passagens uma a Norte e outra mais larga a Este, nesta tem-se acesso a um P 17,  sendo a cabeceira, aproximadamente de 1,50 m de diâmetro, mas no seu desenvolvimento alarga bastante, existe a cerca de 3 m da sua base uma fresta a Este  com boas possibilidades de continuação (assinalada na topografia). A base deste poço é um caos de blocos, segue a progressão por uma fenda no sentido Oeste que nos dá acesso a uma diáclase no mesmo sentido forrada de formas de reconstrução parietais.  Nessa zona por debaixo de uma chaminé de 4 m, abre-se um pouco a diáclase e  acede-se a um poço de 5 m, de onde se sente fresco, estando também na topografia assinalada a possibilidade de progressão após desobstrução. No final da diáclase no sentido NO-SE, abre-se um pequeno meandro que dá acesso  a uma pequena sala (se assim o podemos chamar), em que as paredes estão todas cobertas de formas de reconstrução parietais. Verifica-se ai uma chaminé de 7 m e tem-se acesso a um poço de 6m, terminando ai a progressão.

Geologia:

O algar Alecrineiros IV desenvolve-se segundo a Folha 27-C da Carta geológica de Portugal à escala 1/50000 na formação de Calcários micríticos da Serra de Aire, datada do Batoniano (Jurássico Médio). ♦A gruta aparenta ser um “vadose shaft”. O controlo estrutural do desenvolvimento da gruta aparenta ser feito por descontinuidades de duas famílias de atitude aproximada NNW-SSE/Vertical e E-W/Vertical.

Presente:

Tem-nos dado muito trabalho este algar, inicialmente tivemos necessidade de alargar a entrada, pois apenas cabiam os espeleólogos mais “ligeiros”. De seguida a estabilização do patamar seguinte onde tivemos de retirar muito calhau instável, visto que por debaixo está um P17.

Na base do P17 alargou-se um pouco mais a fenda que dá acesso a progressão, pensamos inclusive que esta fenda tenha já sido alargada pelos companheiros do SSAC. Na diáclase que se segue, no poço ali existente verifica-se de facto a possibilidade de continuação numa fresta ali existente e sente-se o ar fresco, talvez noutra ocasião se aposte nessa desobstrução. Fizemos sim uma desobstrução no pequeno meandro, que nos deu acesso a nova e bonita sala, que infelizmente, após poço termina. É assim, o trabalho avança e fica registado e partilhado!!!

Figura 7,8 – Planta e Perfil do algar Alecrineiros 4.

Planta do algar Alecrineiros 4 em pdf para download

alecrineiros 4P

Perfil do algar Alecrineiros 4 em pdf para download

alecrineiros 4S

Ficha de equipagem do algar Alecrineiros 4 em pdf para download

F.E. Algar Alecrineiros 4

 Fotos do algar Alecrineiros 4 (Fotos: Samuel Lopes WIND/GEM).

Algar das 2 Bocas (Alecrineiros)

Figura 9 – Algar 2 Bocas  (Foto de Sandra Lopes – GEM).

Certamente este algar já deve ter sido explorado por quase todos os grupos de espeleologia, é de fácil acesso é bem visível, sendo a sua exploração também muito simples. Mas constatámos que não existia a sua identificação nos cadastros de São Bento e no da F.P.E., está resolvido e cadastrado.

Descrição:

Este pequeno algar  abre-se à superfície, na sua maior entrada, numa fenda de orientação N-S, acedendo-se ai a um poço de cerca de 3 m, a sua base é composta por cascalheira, barro e lixo. No sentido Norte, destrepa-se um pouco e tem-se acesso a uma pequena sala em cujo tecto que se encontra a segunda abertura, na sua base existe alguns blocos e argila. Termina ai a sua continuação.

Na zona mais a Sul do pequeno algar, encontra-se uma pequena abertura dando a sensação de um oco, assinalado na topografia, mas sem qualquer passagem de ar.

Geologia:

O algar das Duas Bocas desenvolve-se segundo a Folha 27-C da Carta geológica de Portugal à escala 1/50000 na formação de Calcários micríticos da Serra de Aire, datada do Batoniano (Jurássico Médio). A gruta aparenta ser um “vadose shaft. O controlo estrutural do desenvolvimento da gruta aparenta ser feito por descontinuidades de uma família com atitude aproximada N-S/Vertical

Presente:

Mesmo pequenos, estes algares dão sempre algum trabalho, vimos de facto a probabilidade de após desobstrução ele seguir um pouco mais para Sul. Mas de momento outros trabalhos nos ocupam, ficou no entanto topografado e cadastrado, mais um!!!!

Figura 10,11 – Planta e Perfil do algar 2 Bocas (Alecrineiros).

Planta do algar 2 Bocas (Alecrineiros) em pdf para download

2 BocasP

Perfil do algar 2 Bocas (Alecrineiros)em pdf para download

2 BocasS

Ficha de equipagem do algar 2 Bocas (Alecrineiros) em pdf para download

F.E.Algar das 2 Bocas (Alecrineiros)

Fotos do algar 2 Bocas (Fotos: Vitor Amendoeira, Sandra Lopes – GEM).

E já está, mais uma publicação, a 7ª e mais virão certamente, pois neste preciso momento estamos a viver grandes aventuras e a desbravar o desconhecido.

Mas ai estão mais 3 algares cadastrados, topografados e partilhados, A OBRA AVANÇA…….

Algares do cabeço dos Alecrineiros – Parte VI

•26 / 03 / 2017 • Deixe um Comentário

Ribeiro, José: 1,2; Lopes, Samuel: 1,4;Rodrigues, Paulo: 1,2,3

1)- – Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua Maria Veleda, 6, 7ª Esq, 2560-218, Amadora, Portugal 

(2)- Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares 

(3)- Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia 

(4) Wind -CAM- Centro de Actividades de Montanha, Rua Eduardo Mondlane, lj44, 2835-116 Banheira

Introdução

Incentivados pelos trabalhos realizados e descritos no último capítulo decidimos continuar os trabalhos na zona a Sul do vértice geodésico dos Alecrineiros. Desta feita fizemos prospecção naquele belo local, subindo o vale cego que ali se encontra.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 1 – Zona de prospecção, subindo o vale cego (Foto: Samuel Lopes – GEM/WIND).

Olhando para o Cadastro de São Bento e até para o da própria F.P.E. (Federação Portuguesa de Espeleologia), constata-se que nesta área, há poucas cavidades conhecidas, e o potencial da zona fez-nos acreditar que muito há por descobrir. E assim tem sido, mãos a obra, por outras palavras “pés no terreno”. 

Estamos a ser premiados pela nossa dedicação, algumas descobertas, outras tantas desobstruções e muito trabalho a nossa frente!!! A equipa esta a trabalhar em vários algares, partilhando neste capitulo os algares da Selva, do Pinheiro queimado e  do Belo horizonte.

Algar da Selva

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 2 – Entrada do Algar da Selva (Foto de Samuel Lopes – (GEM/WIND).

O algar da Selva foi por nós descoberto num final de dia, após termos saído de outra cavidade. Aproveitando a restante luz do dia, fizemos um pouco de prospecção. Procurámos numa zona em que o mato denso disfarça a profundidade do lapiás ali existente. Um destes chamou-nos a atenção, avançamos junto ao solo e ao virar um pouco descobrimos a boca do algar (na foto em cima já o mato tinha sido desbravado). Recolhemos no próprio dia as coordenadas e o nome dado ao algar deve-se ao denso mato que cobre completamente a sua boca.

imagem

Figura 3 – Enquadramento dos algares da Selva, Pinheiro Queimado e Belo Horizonte.

Descrição:

A boca do algar tem cerca de 1,50 m e abre-se num lapiás em mesa com fendas de profundidade de 1 a 2 metros. Segue-se um poço com 5 m de profundidade, em que uma das laterais ainda tem argila, sendo também um pouco instável, estreitando um pouco em profundidade. No seu fundo uma rampa de argila, dá acesso a uma pequena sala, não havendo qualquer progressão.

Geologia:

O algar desenvolve-se na formação dos Calcário Mícriticos da Serra de Aire. A formação está datada do Batoniano (andar do Jurássico médio), de acordo com Manuppella et al., 2000). A cavidade pode ser classificada como um vadose shaft. O algar é estruturalmente controlado por duas fracturas, uma de direcção aproximada Norte Sul e outra de direcção aproximada NW-SE, ambas verticais. O desenvolvimento do algar é reduzido. A localização no vale cego é de ter em conta.

Presente:

Bom, como normal no dia em que o descobrimos o entusiasmo foi enorme. Conseguimos nesse mesmo dia preparar o caminho no meio do denso mato e não nos livramos de uma terrível comichão nos olhos, proveniente provavelmente dos poléns ali existentes. Seguiu-se outro final de tarde e já com a boca do algar equipada e óculos de protecção, exploramos e verificámos que pouco mais havia a fazer. Fica mais um cadastrado, para que os trabalhos não se repitam.

algar-da-selvap

algar-da-selvas

Figura 4 e 5 – Planta e Perfil do algar da Selva.

Planta do algar da Selva em pdf para download 

algar-da-selvap

Perfil do algar da Selva em pdf para download 

algar-da-selvas

Ficha de equipagem do algar da Selva em pdf para download 

f-e-algar-da-selva

Fotos do algar da Selva (Fotos: Samuel Lopes WIND/GEM).

 

 Algar do Pinheiro Queimado

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 6 – Entrada do algar do Pinheiro Queimado, antes da desobstrução (Foto: Valentina Correia – WIND) .

Em prospecção, chamou-nos a atenção um lapiás, que estava tombado para Sul, dando a ideia de um oco que o terá feito inclinar. De facto o oco estava lá mas o algar estava escondido. Seguiu-se a primeira desobstrução, que deu acesso a um belo poço com paredes cobertas de formas de reconstrução, estávamos a explorar o desconhecido…

Descrição:

A boca do algar (actual) foi por nós desobstruída não era mais do que uma pequena fissura. Esta está num lapiás tombado cerca de 30º para Sul, criando o pequeno espaço onde se encontra a entrada do algar a que se acede por um destrepe de 2 m. Segue-se um poço de 12 m, em que no seu tecto se nota a entrada original do algar, com um bloco a obstruir e que a superfície fica por de baixo de um muro de pedra. O poço é forrado de formas de reconstrução parietais, sendo muito bonito. Na sua base encontra-se um cone de dejecção que inicialmente segue no sentido N-S mas que vira para E-O, tem uma inclinação de cerca de 45º. O cone termina numa pequena sala (se assim se pode chamar) que se desenvolve no sentido N-S, em que ocupando quase toda a sua dimensão tem uma rampa de calcite, sendo esta oca por debaixo. O chão desta pequena sala é totalmente  coberto de argila.

No topo do cone de dejecção, passando um pequeno laminador, tem-se acesso a uma diáclase  de direcção aproximada E-O. Esta prolonga-se por cerca de 10 m, sendo sempre estreita com alguns pequenos poços e uma chaminé com 8 m, a diáclase é forrada de formas de reconstrução parietais. Nota-se que no final da progressão, esta continua, mas muito estreita e que não se sente qualquer passagem de ar.

Geologia:

O algar desenvolve-se na formação dos Calcários Mícriticos da Serra de Aire. A formação está datada do Batoniano (andar do Jurássico médio), de acordo com Manuppella et al., 2000). A cavidade pode ser classificada como um vadose shaft.O algar é estruturalmente controlado por duas famílias de fracturas, uma de direcção aproximada Norte Sul e outra de direcção aproximada Oeste-Este, ambas sub-verticais.  A localização no vale cego é de ter em conta.

 

Presente:

Após a descida do poço e análise do que havia, estávamos entusiasmados com a beleza do que era dado a conhecer pela primeira vez e mais ficamos quando verificamos uma fresta numa parede lateral e reparamos que havia uma probabilidade de progressão. Mais uma desobstrução e estávamos numa diáclase paralela à rampa da base do poço, mas ao fim de dois três metros estreitava sendo impossível a progressão. Bom, mais uma desobstrução, mas desta vez o nosso amigo Orlando Elias (Núcleo de Espeleologia de Leiria), tratou de alargar a passagem. O ar circulava e conseguia-se ver que havia ali mais qualquer coisa, e de facto a diáclase prolonga-se por mais uns metros dando acesso a um poço que é a continuação da diáclase só que agora mais funda. Estávamos “embriagados” com a beleza que víamos e constatámos depois que, para nossa tristeza  a diáclase fecha, havendo uma pequena abertura, assinalada na topografia, que nos parece demasiado penosa e sem qualquer passagem de ar. Paciência, o algar é pequeno, mas para nós tão grande!!!

Figura 7 e 8 – Planta e perfil do algar do Pinheiro Queimado.

 

Planta do algar do Pinheiro Queimado em pdf para download

algar do pinheiro queimadoP

Perfil do algar do Pinheiro Queimado em pdf para download

algar do pinheiro queimados

Ficha de equipagem do algar do Pinheiro Queimado em pdf para download

F.E. Algar do Pinheiro Queimado

Fotos do algar do Pinheiro Queimado (Fotos: Samuel Lopes – WIND/GEM).

 

Algar do Belo Horizonte

Figura 9 – Entrada do Algar do Belo Horizonte (Foto: Samuel Lopes – GEM/WIND) .

Este algar é também fruto da prospecção, deve o seu nome à bela vista que dali se alcança. É de facto um local muito bonito e relaxante, um bom local para se fazer um piquenique,  sem parques eólicos, ou pedreiras até onde a vista alcança. Aqui fomos já presenteados com um bando de gralhas-de-bico-vermelho, com o seu voo ondulante e acrobático, acompanhadas de estridentes e numerosos sons metálicos que caracterizam esta espécie. Com sorte também se avistou uma majestosa águia, que aproveitando as térmicas vai subindo até quase se perder de vista.

Descrição:

A boca do algar é pequena tem cerca 50 cm, e abre-se no centro de um lapiás em mesa com fendas profundas. Segue-se um poço de 3 m (se contarmos com o topo do lapiás será de 6 m). Na base segue-se uma rampa que dá acesso a uma pequena galeria em que numa parede tem algumas formas de reconstrução. O chão está coberto de pedras e restos de vegetação e ossadas de animais.

Geologia:

O algar desenvolve-se na formação dos Calcário Mícriticos da Serra de Aire. A formação está datada do Batoniano (andar do Jurássico médio), de acordo com Manuppella et al., 2000). A cavidade pode ser classificada como um vadose shaft. O  algar é estruturalmente controlado por dois tipos de fracturas, uma de direcção aproximada WNW e outra de direcção aproximada NNE-SSW ambas sub-verticais. O desenvolvimento do algar é reduzido.

Presente:

Este algar deu-nos muito pouco que fazer, devido às dimensões reduzidas e fácil acesso. Mas é mais um que fica cadastrado, topografado e publicado. Até mais que não seja para que os trabalhos não se repitam e daqui a uns tempos quando outras pessoas, talvez outras gerações por aqui andarem, vejam que já existe trabalho feito e possam canalizar o seu tempo e as suas energias noutras descobertas…..

Figura 10 e 11 – Planta e perfil do algar do Belo Horizonte.

 

Planta do algar do Belo Horizonte em pdf para download

belo horizonteP

Perfil do algar do Pinheiro Queimado em pdf para download

belo horizontes

Ficha de equipagem do algar do Pinheiro Queimado em pdf para download

F.E. Algar Belo Horizonte

Fotos do algar do Belo Horizonte (Fotos: Samuel Lopes – GEM/WIND, Sandra Lopes – GEM)

Desta vez, partilhamos 3 algares e para próxima partilharemos grandes aventuras que estamos a viver……

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Algares do cabeço dos Alecrineiros – Parte V

•14 / 02 / 2017 • Deixe um Comentário

Ribeiro, José: 1,2; Lopes, Samuel: 1,4;Rodrigues, Paulo: 1,2,3

1)- – Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua Maria Veleda, 6, 7ª Esq, 2560-218, Amadora, Portugal
(2)- Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares
(3)- Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia 

(4) Wind -CAM- Centro de Actividades de Montanha, Rua Eduardo Mondlane, lj44, 2835-116 Baixa da Banheira

Introdução

De novo nos Alecrineiros, para mais um capítulo deste nosso trabalho. Escolhemos desta feita uma zona mais a Sudoeste do cabeço, onde se situa um belo vale que percorre toda a zona a Sul dos Alecrineiros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 1 – Vale a Sul dos Alecrineiros (Foto: Valentina Correia – WIND).

A equipe trabalhou em 2 algares, que apesar de serem próximos, (distam cerca de 100 metros um do outro), são bastante distintos.

Estes são o algar da Pegada, do qual agradecemos ao C.E.A.E.-LPN (Centro de Estudos e Actividades Especiais da Liga para a Protecção da Natureza) a partilha das coordenadas; e o algar das Pérolas identificado no cadastro de São Bento.

Algar da Pegada

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 2 – Entrada do algar da Pegada (assinalado com uma seta), note-se os lapiaz em mesa (Foto: Valentina Correia – WIND).

Um pouco de história:

O algar da Pegada foi descoberto pelo C.E.A.E. em 2003, tendo sido indicado por um habitante que ali perto passava no seu tractor com a sua senhora, dizendo ao mesmo tempo que com ela ralhava:

– Acolá, ao pé daquele eucalipto, está um algar, sigam o carreiro, ele está entre as pedras, coberto de vegetação, cautela que ele é muito fundo!!!

Tendo sido as coordenadas recolhidas nesse dia. Entretanto o tempo foi passando, o C.E.A.E. envolveu-se em vários projectos, partilhando agora a coordenada no âmbito do nosso projecto.

Descrição:

A boca do algar é pequena, cerca de 50 cm. A secção do poço alarga à medida que a profundidade aumenta, até aos – 35/40 m. Os poços são bastante “instáveis”, com grandes blocos suspensos. Após desobstrução o algar volta a estreitar. Em muitas zonas da cavidade existem muitas formas de reconstrução de parede, fruto das escorrências e em alguns recantos estalagmites e estalactites, poucas.

enquadramento

Figura 3 – Enquadramento dos algares das Pérolas e da Pegada.

Geologia:

O algar desenvolve-se na formação dos Calcários micríticos de Serra de Aire. Esta formação está datada do andar Batoniano do Jurássico Médio. A formação é composta, como o próprio nome indica por calcários, tendo uma espessura local próxima dos 100 m, segundo Manuppella et al, 2000.

O algar desenvolve-se ao longo de uma família de fracturas de direcção Oeste/Este e inclinação sub-vertical. O algar é um vadose shaft, como o comprovam a pequena entrada, o controlo estrutural por fracturas e o seu término em fendas impenetráveis, devido a perda de capacidade de corrosão da água.

Presente:

Após a 1ª saída, de exploração do algar em que verificámos as possibilidades, seguiu-se a estabilização do poço de entrada onde existiam bastantes blocos “perigosos”, que muito trabalho nos deram.

Seguiu-se a desobstrução, o algar “respirava”. Identificada a pequena fissura, por ali procuramos outra possibilidade que nos desse acesso ao desconhecido e por debaixo do caos de blocos, da zona mais larga do algar fomos “felizes”. Ali fomo-nos entretendo, alargando a passagem, para que fosse possível alcançar o desconhecido. Cansados mas muito felizes um pequeno passo para muitos, mas para nós um grande momento.

Após esta pequena passagem a labuta continuou, o poço que se seguiu também necessitou de estabilização. Continuámos então com a esperança e de facto estávamos agora por debaixo da zona da fissura e o algar continuava mas começava a estreitar bastante. Fomos retirando os muitos blocos que impediam o acesso a zona mais funda e também mais estreita. Ali conseguimos descer uns bons metros, mas para nossa tristeza a fractura fecha demasiado sendo impossível a nossa progressão e não se sente aquele ar fresco que nos fez acreditar….

Bom, a grande maioria das vezes é mesmo o que acontece. Siga, aumentámos a profundidade do algar em cerca de 20 metros, é mais um que fica cadastrado, topografado e partilhado!!!

algar-da-pegadap

algar-da-pegada-perfil

Figura 4 e 5 -Planta e perfil do algar da Pegada.

 

Planta do algar da Pegada em pdf para download 

algar-da-pegadap

Perfil do algar da Pegada em pdf para  download 

algar-da-pegada-perfil

Algar da Pegada – pormenor em pdf para download 

promenor-algar-da-pegada

Ficha de equipagem do algar da Pegada em pdf para download 

f-e-algar-da-pegada

Fotos do algar da Pegada (Fotos: Samuel Lopes WIND/GEM).

 

 

Algar das Pérolas

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 6 – Entrada do algar das Pérolas (Foto: Samuel Lopes GEM/WIND).

Um pouco de história:

Corria o ano de 2003, quando numa actividade de prospecção do C.E.A.E. – LPN, esse grande espeleólogo Sérgio Orantes se embrenhou num silvado situado num lapiaz muito bonito e fundo, descobrindo assim o algar das Pérolas. O algar foi explorado na altura onde se fez a desobstrução que deu acesso a segunda sala e às salas agora conhecidas, destacando claro a sala das Pérolas.

Mais tarde em 2006 numa actividade conjunta de GPS (Grupo Protecção Sicó)/NEC (Núcleo de Espeleologia de Condeixa)/AESDA (associação de Estudos Subterrâneos e Defesa do Ambiente), fizeram-se duas desobstruções já na zona de meandro da cavidade.

318_ink_li

Figura 7 – Localização da boca do algar das Pérolas (Note-se a posição da entrada no fundo de um vale cego).

Descrição:

A boca do algar é estreita com cerca de 1 m. Abre-se num megalapiaz de fendas profundas, situada na base de um término de um vale cego de direcção aproximada NE-SW, que drena a vertente Sudoeste do cabeço dos Alecrineiros.

Após entrada segue-se uma pequena sala que dá acesso a outro poço e a uma outra sala, onde existem várias formas de reconstrução sendo estas já bastante fósseis. A partir de aqui a progressão é feita em destrepe até uma pequena sala, ficando esta em paredes meias com a sala das pérolas, zona com muitas e variadas formas de reconstrução de grande beleza. A partir da sala das pérolas entra-se num meandro, que se encontra em grande parte colmatado com sedimentos argilosos. O meandro prolonga-se por cerca de 30 m, e na sua parte final estreita tornando-se impossível a progressão.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 8 – Pérolas de gruta, que dão o nome ao algar (Foto: Samuel Lopes – GEM/WIND).

Geologia:

O algar desenvolve-se na formação dos Calcários micríticos de Serra de Aire. Esta formação está datada do andar Batoniano do Jurássico Médio. A formação é composta, como o próprio nome indica por calcários, tendo uma espessura local próxima dos 100 m, segundo Manuppela et al, 2000.

A parte inicial do algar aparenta desenvolver-se ao longo de duas famílias de fracturas de inclinação sub-vertical, uma de direcção NW-SE e outra E-O, até se atingir a sala das pérolas. A partir desta zona entra-se no meandro, que é um troço de colector em que o diâmetro baixa consoante o seu desenvolvimento. Este troço terá se formado em regime freático, ao contrário da parte inicial da gruta que terá se formado em regime vadoso. Podemos por a hipótese da zona da entrada do algar ter uma origem diferente da zona do meandro. O meandro pode ser classificado como uma galeria paragenética, visto estar muito colmatada com sedimentos argilosos e sendo visível um sobrescavamento no tecto. O meandro é o que resta de um troço de um antigo colector, cuja cota rondaria os 450 m. A presença de este colector poderá não ser estranho o vale cego que termina na boca do algar e que poderá no passado ter fornecido água ao colector, eventualmente num regime semelhante a carso suspenso.

Presente:

Tem-nos dado um prazer enorme explorar e perceber as aventuras que aqui foram vividas. Observando as desobstruções efectuadas, acreditamos que poderíamos ir mais além. Colocamos mãos a obra e escavando na parte final do meandro avançamos cerca de 15 m, até chegarmos a uma zona em que o meandro estreita demasiado, impedindo assim a continuação da desobstrução.

Terminando assim o nosso trabalho nesta cavidade, ficando mais um algar cadastrado, topografado e agora partilhado.

algar-das-perolaspalgar-das-perolass

Figura 9 e 10 – Planta e Perfil do algar das Pérolas.

 

Planta do algar das Pérolas em pdf para download

algar-das-perolasp

Perfil do algar das Pérolas em pdf para download

algar-das-perolass

Ficha de equipagem do algar das Pérolas em pdf para download

f-e-algar-das-perolas

 

Fotos do algar das Pérolas (Fotos: Samuel Lopes  WIND/GEM).

E já esta, mais 2 e brevemente mais serão publicados, a obra AVANÇA……..

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Algares do cabeço dos Alecrineiros – Parte IV

•29 / 10 / 2016 • Deixe um Comentário

Ribeiro, José: 1,2; Lopes, Samuel: 1,4;Rodrigues, Paulo: 1,2,3

1)- – Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua Maria Veleda, 6, 7ª Esq, 2560-218, Amadora, Portugal
(2)- Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares
(3)- Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia 

(4) Wind -CAM- Centro de Actividades de Montanha, Rua Eduardo Mondlane, lj44, 2835-116 Baixa da Banheira

Introdução

Após uma paragem de Verão voltam as publicações sobre os trabalhos realizados no cabeço dos Alecrineiros.

Sim, nos Alecrineiros, onde alguns de nós nasceram para a espeleologia. Todos nós mudamos com o passar dos anos, crescemos não só como pessoas mas também como espeleólogos. Grandes aventuras aqui foram vividas e grandes descobertas aqui foram feitas, na generalidade por todos os grupos que praticam este “desporto/aventura/ciência”. E foi assim ao fim ao cabo que nasceu o cadastro de São Bento, com o saber de toda a comunidade da Espeleologia.

Como já foi dito, tudo muda, pessoas, vontades, culturas, saberes…. Mas o cabeço dos Alecrineiros e aquele belo vale mantêm-se quase inalterados com o passar das décadas, aqui ali salpicados por um tijolo de alguma construção para abrigo do gado ou o aparecimento de alguns eucaliptos, fruto dos tempos que vivemos. Mas o que fica mesmo é a paz, o silêncio do sussurrar do vento, mesmo naqueles dias de tempestade em que já com os dedos enregelados e dormentes carregamos os nossos equipamentos. Quais astronautas, em busca do desconhecido, do muito que certamente aqui há por descobrir e que tanto gozo nos dá procurar!!!!

Bom, presente!!! Por agora ainda não tivemos a felicidade da descoberta, mas também o nosso principal objectivo é alimentar e partilhar o cadastro de São Bento e obviamente o da F.P.E.

Deixamos aqui alguns apontamentos sobre mais dois algares por nós explorados, fotografados e topografados: o algar dos Amores e o algar da Pedra que dança.

Algar dos Amores

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 1 – Entrada do algar dos Amores (Foto: Samuel Lopes)

Desenvolvimento total: 23 m, Desnível: 17 m.

Através de uma entrada estreita penetra-se no algar dos Amores. O algar tem uma estrutura simples, sendo composto por um poço de 17 m, onde por uma janela se acede a um pequeno patamar a cerca de 12 m de profundidade.

Existe um pequeno patamar a sensivelmente 2 m do fundo que dá acesso a um pequeno buraco que aparentemente termina ao mesmo nível que o fundo da cavidade sem qualquer corrente de ar.

Devido à sua proximidade do Algar da Águia (publicado na segunda parte deste trabalho), e segundo as topografias faz parte da mesma família de fracturas.

O algar é um vadose shaft que aparenta desenvolver-se ao longo de famílias de fracturas de direcção aproximada NW-SE e E-W.

algar-dos-amoresp-1-figura-2a

algar-dos-amoress-1-figura-2b

Figura 2 -Planta e perfil do algar dos Amores

 

Planta do algar dos Amores em pdf para download 

algar-dos-amoresp

Perfil do algar dos Amores em pdf para download  

algar-dos-amoress

Ficha de equipagem do algar dos Amores em pdf para download

f-e-algar-dos-amores

 

Fotos do algar dos Amores

Algar da Pedra que dança

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 3 -Entrada do algar da Pedra que dança (Foto: Samuel Lopes)

Desenvolvimento total: 96 m, Desnível: 61 m (por enquanto).

Este algar apresenta um par de particularidades, em primeiro lugar a algumas passagens mais estreitas que obrigaram à sua desobstrução e em segundo lugar o bloco em posição periclitante que dá nome à gruta. Este último obrigava a algumas passagens cuidadosas da equipa, até se conseguir proceder à “estabilização do bloco”, que por razões de segurança ficou bem mais pequeno, não pelo bloco, mas sim pelo tecto da cabeceira do poço que era formado por argilas e blocos.

O algar é composto por uma série de poços sobrepostos cuja profundidade varia entre os 4 e 17 m, terminando o último poço num caos de blocos.

Este algar já tinha sido anteriormente alvo de exploração por parte da  Société Spéléo- Archéologique de Caussade e do Alto Relevo Clube de Montanhismo.

É um algar bastante técnico, no sentido da progressão, têm de se ter particular atenção às pedras soltas que, mesmo tendo sido eliminadas, ainda aparece uma aqui ou ali.

Aos -61 m, existe uma zona onde se sente a corrente de ar, estamos a desobstruir uma passagem que nos parece promissora.

O algar é um vadose shaft aparenta desenvolver-se ao longo de famílias de fracturas de direcção aproximada NW-SE e NE-SW.

algar-da-pedra-que-danca-p-1-figura-4aalgar-da-pedra-que-danca-s-1-figura-4b

algar-da-pedra-que-danca-pormenor-1-figura-4c

Figura 4 – Planta e perfil do algar da Pedra que dança

 

 

Planta do algar da Pedra que dança em pdf para download 

algar-da-pedra-que-danca-p

Perfil do algar da Pedra que dança em pdf para download   

algar-da-pedra-que-danca-s

Algar da Pedra que dança – pormenor em pdf para download

algar-da-pedra-que-danca-pormenor

Ficha de equipagem do algar da Pedra que dança em pdf para download 

f-e-algar-da-pedra-que-danca

 

Fotos do algar da Pedra que dança

 

Agradecimentos

Agradecemos em especial a Orlando Elias pela sua colaboração nas desobstruções realizadas no algar da Pedra que dança e, claro, sempre pela sua alegria e boa disposição.

A obra avança!!!!

 

Algares do cabeço dos Alecrineiros – Parte III

•30 / 07 / 2016 • Deixe um Comentário

Ribeiro, José: 1,2; Lopes, Samuel: 1,4;Rodrigues, Paulo: 1,2,3


1)- Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua Maria Veleda, 6, 7ª Esq, 2560-218, Amadora, Portugal
(2)- Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares
(3)- Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia, Estrada Calhariz de Benfica, 187,  1500-124 Lisboa

(4) Wind -CAM- Centro de Atividades de Montanha, Rua Eduardo Mondelane, lj44, 2835-116 Baixa da Banheira

Introdução

Procurámos, alimentados pelo cadastro de São Bento, aqui e ali, seguindo a vontade de desbravar o desconhecido por novos algares e pelas segredos neles contidos. Desta feita, aqui na III parte dos Algares do cabeço dos Alecrineiros, apresentamos mais dois algares, de grande beleza, da zona em estudo.  A saber os algares do Ponteiro e Vento.

Algar do Ponteiro

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 1– Fotografia da entrada do algar do Ponteiro (Foto: Samuel Lopes)

Desenvolvimento total: 33m, Desnível: 15m.

A cavidade abre-se à superfície num poço de 7m, dando acesso a uma pequena galeria, onde através da qual se chega a uma diaclase de direção NW-SE, ao longo da qual se desenvolve o resto da cavidade.

A progressão na cavidade obrigou à realização de várias desobstruções realizadas por Orlando Elias do Núcleo de Espeleologia de Leiria (NEL), numa das quais se teve acesso a uma pequena galeria já antes identificada pelo SSAC.

O algar é um vadose shaft que aparenta desenvolver-se ao longo de famílias de fraturas de direção aproximada NW-SE, E-W e NE-SW.

 Fig. 2-Planta algar do ponteiroP

Fig. 2 -Perfil algar do ponteiroS-page

Figura 2– Planta e perfil do algar do Ponteiro

Planta e perfil do algar do Ponteiro em pdf para download

algar do ponteiroP algar do ponteiroS

Ficha de equipagem do algar do Ponteiro em pdf para download

F.E.Algar do Ponteiro

Fotos do algar do Ponteiro (Fotos: Samuel Lopes)

Fotos do algar do Ponteiro (Fotos Florbela Silva e Bruno Pais)  

Algar do Vento

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

 Figura 3– Fotografia da entrada do algar do Vento (Foto: Samuel Lopes)

Desenvolvimento total: 80m, Desnível: 18m.

A gruta acede-se a partir de um poço de 6 m, chegando a uma galeria, onde se encontra um poço. Descendo o poço entra-se numa outra galeria de desenvolvimento NW-SE, concrecionada, separada por uma pequena passagem a outra galeria, ainda mais concrecionada e de grande beleza. Na base desta galeria através de uma zona estreita preenchida por blocos abatidos, é possível vislumbrar a base da galeria anterior. A zona mais profunda do algar encontra-se coberta com “couve flor”, indiciando que terá existido ali um lago.

O algar é um vadose shaft que aparenta desenvolver-se ao longo de famílias de fraturas de direção aproximada NW-SE e N-S.

Fig. 4 - Planta - algar do ventoP-page-001

Fig. 4 - algar do ventoS-page-001

Figura 4– Planta e perfil do algar do Vento

Planta do algar do Vento em pdf para download 

algar do ventoP

Perfil do algar do Vento em pdf para download  

algar do ventoS

Ficha de equipagem do algar do Vento em pdf para download 

F.E. Algar do Vento

Fotos do algar do Vento (Fotos: Samuel Lopes)

Agradecimentos

Agradecemos em especial a Orlando Elias pelas desobstruções realizadas no algar do Ponteiro e sem as quais não seria possível ter prolongado a exploração do mesmo.

Algares do cabeço dos Alecrineiros – Parte II

•30 / 05 / 2016 • Deixe um Comentário

Ribeiro, José: 1,2; Lopes, Samuel: 1,4;Rodrigues, Paulo: 1,2,3
1)- Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua Maria Veleda, 6, 7ª Esq, 2560-218, Amadora, Portugal
(2)- Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares
(3)- Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia, Estrada Calhariz de Benfica, 187,  1500-124 Lisboa

(4) Wind -CAM- Centro de Atividades de Montanha, Rua Eduardo Mondelane, lj44, 2835-116 Baixa da Banheira

  Este post é uma republicação de um post do GEM-  Grupo de Espeleologia e Montanhismo.  

Introdução

Este trabalho tem sido gratificante para todos os que nele têm participado, não só pelo aspecto espeleológico, mas também pela beleza natural da zona do cabeço dos Alecrineiros. A paisagem é dominada pelos chousos, há muito construídos pelos locais, com o intuito de divisão dos terrenos e de resguardo do gado. Se exceptuarmos a localidade de Moita do Açor e de um outro raro abrigo de pastorícia, passamos os dias quase sem sinais de actividade humana ao nosso redor.

No planalto predomina a vegetação mediterrânica, sobretudo a rasteira, apesar de se começar a notar aqui e ali algumas plantações de eucaliptos, quem sabe em busca de mais algum rendimento, para as populações locais. Pelo meio da vegetação lá vamos procurando os algares, que ali abundam e vamos continuando o nosso trabalho, que muita alegria nos tem dado, sentimos-nos por vezes a renascer com a alegria de explorar o desconhecido, que para muitos já é conhecido mas para nós é sempre novo.

De seguida podem-se encontrar mais alguns resultados dos trabalhos realizados nos algares do cabeço dos Alecrineiros. A saber os algares da Estrada, Murete e Águia.

Algar da estrada

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 1– Fotografia da entrada do algar da Estrada (Foto: Samuel Lopes)

Desenvolvimento total: 7m, Desnível:5m.

O algar tem dimensões reduzidas. A boca, estreita, dá acesso a um poço de 2m, onde descendo uma rampa se acede a um novo poço de 2m, no fundo do qual termina a gruta.

O algar é um vadose shaft que aparenta desenvolver-se ao longo de uma fractura de direcção aproximada W-E e inclinação subvertical.

Fig.2aFig. 2b

Figura 2– Planta e perfil do algar da Estrada

Links para download da topografia:

 algar da estradaP

algar da estradaS

Fotos do algar do algar da Estrada (Fotos: Samuel Lopes)

Algar do Murete

FIG.3

Figura 3– Fotografia da entrada do algar do Murete (Foto: Florbela Silva/Bruno Pais)

Desenvolvimento total: 6m, Desnível:5m.

A gruta tem uma estrutura simples, é composta por um poço de 5m de profundidade. A partir do fundo do poço, após um ressalto de mais de 2m de altura, encontra-se uma pequena reentrância.

O algar é um vadose shaft que aparenta desenvolver-se ao longo de uma fractura de direcção aproximada NW-SE e inclinação subvertical.

Fig.4bFig. 4a

Figura 4– Planta e perfil do algar do Murete

Links para download da topografia:

 algar do mureteP

 algar do mureteP

Fotos do algar do algar do Murete (Fotos: Samuel Lopes)

Algar da Águia

  

 

 

Desenvolvimento total: 81m, Desnível:16m.

A cavidade é composta por um poço, em que a meia altura se encontra um patamar. Este dá acesso a um tramo que se desenvolva inicialmente para Norte e depois para Oeste. Este tramo tem grande beleza, com abundantes concreções. No seu término encontra-se um poço, no fundo do qual estão ossadas de um carnívoro. O animal poderá ter caído por uma entrada, que se abriria no topo de uma chaminé, situada no topo do poço, que entretanto terá fechado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 6 – Ossadas de carnívoro (Foto: Samuel Lopes)

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 7– Dente do carnívoro (Foto: Samuel Lopes)

O poço de entrada alarga-se na sua base. Para Norte dá acesso a uma rampa, coberta por um cone de dejecção. Para Sul chega-se a uma sala onde através de uma pequena escalada se atinge um patamar, com muitas formas de reconstrução que liga de novo ao poço de entrada.

Os vários poços da gruta terminam todos a uma profundidade semelhante (-16m). É também curioso que as concreções acabem abaixo dos 12 m de profundidade.

O algar é um vadose shaft que aparenta desenvolver-se ao longo de famílias de fracturas de direcção aproximada NW-SE, E-W e NE-SW.

Fig.8aFig. 8b

Figura 8 – Planta e perfil do algar da Águia

Links para download da topografia:

algar da aguiaP

algar da aguiaS

F.E.Algar da Águia

 

Fotos do algar da Águia (Fotos: Samuel Lopes)

Agradecimentos

Aproveitamos para expressar os nossos agradecimentos a Florbela Silva e Bruno Pais pela sua participação na realização destes trabalhos, sobretudo por aqueles que são realizados durante a semana.

A não perder no próximo capítulo: Algar do Vento e Algar do Ponteiro  

 

 

 

Algares do cabeço dos Alecrineiros – Parte I

•30 / 04 / 2016 • Deixe um Comentário

Este post é uma republicação de um post do GEM-  Grupo de Espeleologia e Montanhismo

Ribeiro, José: 1,2; Lopes, Samuel: 1,4;Rodrigues, Paulo: 1,2,3

1)- Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua Maria Veleda, 6, 7ª Esq, 2560-218, Amadora, Portugal
(2)- Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares
(3)- Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia, Estrada Calhariz de Benfica, 187,  1500-124 Lisboa  

(4) Wind -CAM- Centro de Atividades de Montanha, Rua Eduardo Mondelane, lj44, 2835-116 Baixa da Banheira

Introdução

Bem no coração do Planalto de Sto. António encontra-se o cabeço dos Alecrineiros, assinalado pelo vértice geodésico com o mesmo nome. Este cabeço é já bem conhecido da comunidade espeleológica nacional e internacional, pela abundância de algares. Dos trabalhos já realizados destacamos os seguintes, realizados no âmbito do grupo de São Bento.

https://nalga.wordpress.com/algar-dos-alecrineiros-resultado-dos-trabalhos/

https://nalga.wordpress.com/2013/12/30/algar-dos-alecrineiros-sul-uma-resenha-dos-trabalhos/

https://nalga.wordpress.com/2009/04/28/regresso-a-sbento-alecrineiros-sul-e-pena-traseira-ii-o-gesb-faz-novas-descobertas/

https://nalga.wordpress.com/2013/01/18/algar-dos-cos-carvalhos/

https://nalga.wordpress.com/2007/12/02/resultados-dos-trabalhos-no-algar-dos-alecrineiros/

https://nalga.wordpress.com/2008/12/07/o-nalga-fez-anos-3ª-expedicao-grupo-espeleo-sben

https://nalga.wordpress.com/2015/03/14/alguns-apontamentos-sobre-os-algares-a102a-e-a102b/

O SSAC (Societe Spéleo Archéologique de Caussade) nos seus relatórios das actividades realizadas em Portugal apresenta a localização de abundantes cavidades, bem como de algumas topografias e esboços de vários algares desta zona.

Figura 1 – Área de trabalho à superfície

Figura 1 – Áres de trabalho à superfície

Objetivo 

Dentro do âmbito do grupo de São Bento, o Grupo de Espeleologia e Montanhismo (GEM) criou um plano de trabalho que visa alimentar o cadastro de São Bento, com: a localização de novas cavidades, verificação e correcção da localização de cavidades já cadastradas, topografia das grutas e produção de fichas de equipagem das mesmas. O plano contempla também os aspectos geológicos das cavidades estudadas. Dada a extensão do Planalto de Sto. António, alvo dos trabalhos do grupo de São Bento o GEM, em colaboração com a WIND, optou por trabalhar sistematicamente uma área limitada do planalto, e apenas depois seguir para outras zonas. A área escolhida foi o cabeço dos Alecrineiros.

 

Figura 2  –  Equipa de trabalho

Agradecimentos

Desde já aproveitamos para agradecer o apoio institucional e logístico que a Wind -CAM- Centro de Actividades de Montanha tem vindo a dar a todo este projecto. Também não podemos deixar passar em claro o precioso esforço de todos aqueles que não sendo sócios do GEM e da WIND têm tomado parte neste projecto, salientamos neste campo Orlando Elias do Núcleo de Espeleologia de Leiria (NEL), que tem tomado a seu cargo as desobstruções mais pesadas que permitiram avançar com algumas das explorações.

Localização

O cabeço dos Alecrineiros fica situado no Maciço Calcário Estremenho, na unidade morfoestrutural do Planalto de Sto. António. A localidade mais próxima é Moita do Açor, da freguesia de São Bento, concelho de Porto de Mós. A partir da Moita do Açor pode-se aceder através de alguns estradões à elevação dos Alecrineiros.

 

Fig.3

Figura 3 – Foto satélite com área do cabeço dos Alecrineiros

Geomorfologia

O planalto de St. António é (Manuppela et al, 2000), uma unidade geomorfológica de forma triangular, cujo vértice se desenvolve para Norte, constituído por superfícies altas limitadas por escarpas vigorosas, a ocidente e a oriente e uma vertente meridional que desce mais progressivamente até ao bordo sul do maciço. Todo o perímetro do planalto é delimitado por falhas às quais deve a sua posição elevada, em relação à envolvente. A superfície do Planalto de St. António é aplanada, inclinando ligeiramente para Sul, apresentando, segundo Fernandes Martins, 1949, vestígios de uma antiga superfície de aplanação fluvial, posteriormente trabalhada pela erosão cársica e normal. A superfície do planalto apresenta várias formas típicas do relevo cársico como campos de lapiás, a uvala de Chão das Pias e um número considerável de dolinas segundo Manuppella et al, 2000.

 

Fig.4

Figura 4 – Mapa hipsométrico do MCE

O vértice geodésico marca o topo da elevação dos Alecrineiros com uma altitude de 541m. A elevação alonga-se na direcção Norte-Sul sendo, limitada a Norte e a Sul por vales de direcção grosseira WNW-ESSE, a Oeste pela vertente abrupta que desce para o polje da Mendiga e a Este pela depressão onde se situa a localidade de Moita do Açor. O topo da elevação é relativamente plano com as cotas, a manterem-se quase sempre acima dos 500m, com alguns pontos a ultrapassarem os 540m, aqui e ali, a fazer lembrar uma superfície de aplanação, conforme referido por Fernandes Martins, 1949.

A superfície da elevação dos Alecrineiros apresenta um relevo marcadamente cársico, do qual se destacam várias formas exocársicas, saber: lapiás de mesa, delineado por uma bem marcada rede de fracturas, abundantes dolinas e uvalas, que se encaixam na superfície aplanada.

Enquadramento Geológico 

Com base na análise da Folha 27-A – Vila Nova de Ourém da Carta Geológica de Portugal à escala 1/50000, observa-se que a elevação se desenvolveu nas formações de Calcários mícriticos da Serra de Aire e Calcários Bioclásticos do Codaçal.

Ambas as formações estão datadas do Batoniano (andar do Jurássico médio). Os Calcários mícriticos da Serra de Aire têm como litologia dominante, (Manuppella et al., 2000) calcários micriticos, com uma espessura da ordem dos 300-400m. Os Calcários Bioclásticos do Codaçal têm como litologia predominante, (Manupella et al., 2000) calcários bioclásticos e oobioclásticos, com 50-60m de espessura. As formações fazem parte da formação cársica do Jurássico Médio (Crispim, 1995).

Em termos estruturais, e com base na análise expedita da Carta Geológica de Portugal referida anteriormente, o Planalto de St. António corresponde a um monoclinal com algumas flexuras, em que as formações apresentam uma direcção regional que varia entre aproximadamente WNW-ESE e NW-SE, inclinando suavemente para Sul. Este monoclinal é cortado por uma série de falhas com direcção aproximada WNW-ESE – NW-SE, muitas delas com preenchimento dolerítico.

 

Fig.5

Figura 5 – Extracto da Folha 27-A da Carta Geológica de Portugal à escala 1/50000 com localização de algumas grutas. Autoria: Pedro Robalo

A zona em estudo (Crispim, 1995), é atravessada por descontinuidades de orientação aproximadamente NW-SE a WNW-ESSE, em conformidade com O sistema de falhas identificadas na Folha 27-A-Vila Nova de Ourém da Carta Geológica de Portugal à escala 1/50000, onde se observa que os acidentes mais próximos têm direcção predominante WNW-ESE.

Enquadramento hidrogeológico

A hidrogeologia do MCE continua a ser hoje em dia pouco conhecida. Cada uma das unidades geomorfológicas possui um número muito limitado de nascentes permanentes para onde escoam as suas águas subterrâneas. A unidade onde se situam as gruta alvo deste estudo, o Planalto de St. António, drena as suas águas sobretudo para a nascente do Rio Alviela, localizada a SE da cavidade (Costa Almeida et al, 2000). Admite-se também que o polje de Minde, tem um papel fundamental, à escala do maciço, na distribuição da circulação da água subterrânea (Crispim, 1995).

Potencial espeleológico

Como é conhecido pela comunidade espeleológica, abundam no Planalto de Sto. António e em particular no cabeço dos Alecrineiros os algares. Estes são compostos por um ou mais poços ligados entre si. A profundidade que os algares chegam a atingir, na zona do cabeço dos Alecrineiros, varia desde os poucos metros até aos -220m do algar Alecrineiros Sul.

Tal concentração e desenvolvimento de cavidades pode ser explicada por ser reunirem uma série de condições propícias ao desenvolvimento de grutas. A saber:

  • litologias (calcários do Jurássico Médio) altamente carsificáveis,
  • espessuras dessas litologias da ordem das largas centenas de metros (Manuppela et al, 2000),
  • rede de fracturação bem desenvolvida, com fracturas com grau de abertura alto,
  • precipitação considerável,
  • amplitude topográfica, os terrenos do planalto chegam a ter mais de 500m acima do nível do mar e mais de 430m acima da nascente do Alviela que se julga drenar o Planalto de Sto. António

Uma proposta de modelo espeleogenético

Os poços dos algares são controlados estruturalmente por descontinuidades subverticais, que se intersectam entre si.

As cavidades apresentam uma organização muito simples, a morfologia das passagens é, nos casos em que não se verificou uma destruição por abatimentos, a da estrutura original, alta e estreita, mantendo de um modo grosseiro a forma da descontinuidade ao longo da qual se desenvolveram. Estas características são definidas por (Bögli, 1980) como sendo de cavidades de origem vadosa primária. As caneluras que se desenvolvem ao longo dos poços são formadas pelo efeito corrosivo e erosivo da água que escorre, goteja (Baroñ, 2003), ou pela própria aspersão da água, ao longo das paredes de fracturas subverticais, o que é aliás típico do regime vadoso, (Lauritzen e Lundberg, 2000). Com base nas observações acima referidas podemos afirmar que estas grutas são formada em regime vadoso.

Os algares desenvolvem-se a partir da água acumulada no epicarso. O epicarso é uma zona superficial do carso, caracterizado por uma maior intensidade da fracturação e da carsificação difusa (Klimchouck, 2000). O epicarso apresenta, mercê das características antes referidas, uma maior permeabilidade, que a maior parte da zona vadosa subjacente, (Klimchouck, 2000), constituindo o suporte de um aquífero suspenso. A água armazenada no epicarso drena para descontinuidades que se encontram na base do epicarso. Estas descontinuidades conduzem a água para o interior do maciço em direcção aos colectores que se encontram em profundidade (Klimchouck, 2000). Ao longo das descontinuidades e enquanto a água se mantém agressiva ou vê a sua agressividade renovada por fenómenos como a corrosão por mistura, vai ocorrendo a corrosão do calcário que tem como consequência o alargamento das descontinuidades e a formação de poços (Klimchouck, 2000). Ao longo destas descontinuidades, que se encontram na base do epicarso, desenvolvem-se, deste modo, grutas compostas essencialmente por poços que conduzem a água até colectores no interior do maciço (Klimchouck, 2000). Os colectores podem não estar geneticamente relacionados e nem sequer serem contemporâneos das cavidades que se desenvolveram na base do epicarso (Klimchouck, 2000). Esta ligação entre as cavidades da base do epicarso e o sistema de condutas será feita, na maioria dos casos, através de zonas intransponíveis para o ser humano, tipicamente galerias que guiadas por uma camada ou por poços de aspecto meandriforme controlados por descontinuidades (Klimchouck, 2000). Em muitos casos estas estruturas, que partem do fundo dos poços estão cobertas por blocos resultantes de abatimentos no interior da cavidade (Klimchouck, 2000).

A morfologia dos algares e o seu enquadramento apresenta muitas semelhanças aos dos “Karst Shafts” descritos por Baroñ, (Baroñ, 2003). Porém não é claro se o esquema de desenvolvimento proposto por este autor se adapta completamente às cavidades em estudo.

Fase embrionária. O algar começa a desenvolver a partir da infiltração de água proveniente do epicarso. A água, acumulada no epicarso, provem da precipitação. A infiltração dá-se através de descontinuidades pré-existentes. As cavidades são geralmente muito estreitas e sem ligação à superfície. A corrosão por filme de água é provavelmente o principal processo espeleogenético. Admite-se (Baroñ, 2003) que ao longo de uma mesma fractura se podem desenvolver várias cavidades separadas, tendo cada cavidade uma fonte de água própria. Temos de colocar a hipótese dos vários poços que constituem uma dada gruta terem um desenvolvimento em separado, isto explicaria o facto de algumas das grutas serem constituídas por uma série de poços com desenvolvimento paralelo e ligados de uma forma geral por passagens estreitas

Fase Jovem. Devido à corrosão provocada pelas águas de infiltração dá-se um aumento da abertura das descontinuidades. O principal processo espeleogenético deve-se agora aos pingos e gotas de água que caem verticalmente através de uma atmosfera rica em CO2, conferindo á água um elevado poder corrosivo. A água ataca intensamente a rocha calcária. Nos locais onde as gotas de água caem formam-se depressões. Á medida que os poços se aprofundam as depressões passam a caneluras subverticais. Esta é a fase da maior taxa de crescimento do poço. As caneluras são a parte dominante do volume do poço e chegam a atingir dezenas de metros de comprimento e diâmetro de vários decímetros. A drenagem ocorre ao longo da superfície das fracturas. A cavidade continua a ser um canal embriónico inacessível. À corrosão devida a filmes de água e a abatimentos adicionam-se à corrosão causada pelo gotejamento, porém têm pouca influência no alargamento dos poços. Todos os processos de formação de poços são acentuados na intersecção de fracturas.

Fase da abertura do poço. Esta fase caracteriza-se pelo alargamento das cavidades, dando-se nesta fase (Baroñ, 2003) a abertura da boca da cavidade à superfície. Os poços desenvolvem-se não só em profundidade, mas também para cima, pela acção de filmes e de corrosão por condensação. A condensação por corrosão é mais intensa no topo dos poços, na base do epicarso, especialmente durante o inverno. A desnudação da superfície, corrosão do subsolo, os efeitos mecânicos e químicos das raízes das árvores combinam-se para permitir a abertura da gruta à superfície. A depressão aparece inicialmente de uma forma incipiente sendo posteriormente alargada.

Fases posteriores. À medida que se alargam, os poço paralelos e canais retiram cada vez mais água suspensa do epicarso. O aprofundamento dos poços diminui gradualmente à medida que menos água fica disponível para uma dada abertura. Nesta fase começam a depositar-se concreções. Estes depósitos tendem a esconder as formas de dissolução originais.

À medida que a boca da gruta se alarga, começam a cair por ela e, a preencher parcialmente o fundo do poço, detritos como blocos, solo e restos orgânicos. A matéria orgânica em decomposição aumenta a concentração de CO2 na atmosfera da gruta, especialmente na base dos poços. A atmosfera enriquecida em CO2 permite aumentar a agressividade da água e ajuda a aprofundar os poços.  A continuação do preenchimento da gruta com material proveniente da superfície, abatimentos e desnudação da superfície podem levar à colmatação da cavidade.

Grutas alvo dos trabalhos

Os trabalhos foram realizados nas seguintes grutas: Chouso dos Alecrineiros, Curral das Éguas, algar da Estrada, algar do Murete, algar do Vento, algar da Águia, algar do Ponteiro, algar dos Amores e algar da Pedra que dança.

Fig.6

Figura 6- Foto satélite com localização das grutas. Autoria: Pedro Robalo

Descrição, espeleometria e geologia

Chouso dos Alecrineiros  

 

Fig.7

Figura 7– Fotografia da entrada do Chouso dos Alecrineiros. Autor: Bruno Pais

Desenvolvimento total: 45m, Desnível:29m.

A boca da gruta tem cerca de 2m de largura, dando acesso a um poço com 25 m de profundidade, que aos  4m estreita, e que permite, na sua base, aceder a uma rampa que leva a uma pequena sala, a zona mais funda da gruta.

Fig. 8

Figura 8 – Fotografia do interior do Chouso dos Alecrineiros. Autor: Bruno Pais

O algar é um vadose shaft que aparenta desenvolver-se ao longo de duas famílias de fracturas de direcção aproximada NW-SE e W-E e inclinação subvertical.

Fig.9a

Fig.9b

Figura 9 – Planta e perfil do algar do Chouso dos Alecrineiros

algar c. dos alecrineirosS (Perfil do algar do Chouso dos Alecrineiros em pdf para download)

algar c. dos alecrineirosP (Planta do algar do Chouso dos Alecrineiros em pdf para download)

F.E. c. dos Alecrineiros (Ficha de equipagem do algar do Chouso dos Alecrineiros em pdf para download)

Fotos do algar Chouso dos Alecrineiros

Curral das Éguas

O algar do Curral das Éguas é um local de nidificação da Gralha-de-bico-vermelho. Esta é uma espécie ameaçada e protegida. Qualquer visita a este algar deve ter em primeiro lugar o cuidado pela conservação desta espécie. Quem deseje visitar este algar (ou outra cavidade utilizada para nidificação pela Gralha-de-bico-vermelho), não o deverá fazer entre o inicio de Março e o início de Junho.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 10 – Fotografia de um dos poços terminais do Curral das Éguas

Desenvolvimento total: 193m, Desnível:102m.

Este é o algar mais profundo explorado no âmbito do plano de trabalhos. A boca do altar tem um diâmetro de cerca de 1 a 1,5m. A boca dá acesso a um poço de 14m, a partir da base do qual se entra num poço de 42m (a Ternura dos 40), que permite atingir a Diaclase da Pérola de gruta. Ao longo desta fractura desenvolve-se a maior parte da gruta. O poço da “Ternura dos 40” termina aos -55m, numa passagem estreita, o “entalador de tomates”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 11 – Fotografia da entrada do Curral das éguas

 

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 12 – Aspecto de um manto estalagmítico que cobre uma parede de um dos poços

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 13 – Aspecto de uma concreção

 

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 14 – Pérola de gruta

 

Vencendo-se esta passagem acede-se a uma sucessão de poços que levam aos -102m, muito graças ao esforço dos nossos amigos do SSAC que realizaram várias desobstruções que permitem aceder ao fundo da gruta. No entanto os trabalhos não estão concluídos. No entanto no decorrer deste trabalho foi identificada uma promissora corrente de ar, numa janela estreita a cerca de 5-6m do fundo da gruta.

O algar é um vadose shaft que aparenta desenvolver-se ao longo de famílias de fracturas de direcção aproximada N-S, W-E, NE-SW, NW-SE e inclinação subvertical.

 

Fig.15aFig.15b

Figura 15 – Planta e perfil do algar do Curral das Éguas

algar docurral das eguasP

Planta do algar do Curral das Éguas em pdf para download 

algar docurral das eguasS

Perfil do algar do Curral das Éguas em pdf para download 

F.E. algar do curral das éguas

Ficha de equipagem do algar do Curral das Éguas em pdf para download

Fotos do algar do Curral das Éguas

Referências  bibliográficas  

  • Bögli, A. (1980), Karst Hydrology and Physical Speleology, Springer-Verlag, Berlin Heildelberg New York.
  • Baroñ, Ivo (2003) – Speleogenesis along subvertical joints: A model of plateau karstshaft development: A case study: the Dolný Vrch Plateau (Slovak Republic), Cave&Karst Science 29 (1), 2002, 5-12.  010
  • Crispim, J.A (1995). Dinâmica Cársica e Implicações Ambientais nas Depressões de Alvados e Minde. Tese de Doutoramento em Geologia, especialidade de Geologia do Ambiente. Departamento de Geologia. Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa.
  • Christofoletti, Antônio (1980),  Gemorfologia. Edgard Blucher, SP
  • Martins, A. F. (1949). Maciço Calcário Estremenho – Contribuição para um estudo de Geografia Física. Tese de Doutoramento, Universidade de Coimbra, Coimbra
  • Manupella, G., Telles Antunes, M., Costa Almeida, C.A., Azerêdo, A.C., Barbosa, B., Cardoso, J.L., Crispim, J.A., Duarte, L.V., Henriques, M.H.,  Martins, L.T.,  Ramalho, M.M.; Santos, V.F.; Terrinha. P.;  (2000). Carta Geológica de Portugal – Vila Nova de Ourém, Folha 27-A, á escala 1:50000, e Nota Explicativa, Instituto Geológico e Mineiro, Lisboa
  • Costa Almeida, Mendonça J.J.L., Jesus, M.R., Gomes A.J., (2000) – Sistemas Aquíferos de Portugal Continental. Centro de Geologia da FCUL/INAG