Abrigo da Pena de água


Projecto “Para Além do Parque”

A sombra é, maior que a luz sempre que rejeitares o que te seduz.

Enquadramento

A exsurgência da Pena de água situa-se na base do Arrife, perto da localidade de Rexaldia, freguesia de Chancelaria, concelho de Torres Novas. Em relação à cartografia a zona em estudo encontra-se na Folha 27-A Vila Nova de Ourém da Carta Geológica de Portugal à escala 1:50 000 e Folha 309 da Carta Militar de Portugal à escala 1:25000. As coordenadas da nascente (em coordenadas geográficas Datum WGS84): são: 39.58080 N -8.54655 O. A altitude é de 150m.

Excerto da Folha 309 da Carta Militar de Portugal à escala 1/25000 com a localização da exsurgência em seta branca.

Excerto da Folha 309 da Carta Militar de Portugal à escala 1/25000 com a localização da exsurgência em seta branca.

 

Geologia

A exsurgência situa-se, como em cima referido, na base do Arrife, que é uma escarpa de falha resultante do cavalgamento que põe em contacto as formações do Jurássico médio do Maciço Calcário Estremenho (M.C.E.) com as formações mesocenozóica da bacia do Tejo.

A exsurgência abre-se na formação de calcários micríticos da serra de Aire datado do Batoniano. Que segundo Crispim 1995, é a formação cársica por excelência do M.C.E.

A falha do Arrife põe em contacto as formações do jurássico médio (muito carsificáveis e permeáveis) com as formações da bacia terciária do Tejo, nomeadamente com os arenitos de Monsanto (Oligocénico) que do ponto de vista carsológico são pouco permeáveis. O contacto de formações de diferentes permeabilidades juntamente com a presença de fracturas potenciou a génese da exsurgência.

Excerto da Folha 27-A Vila Nova de Ourém da  Carta Geológica de Portugal com a localização da exsurgência em seta branca.

Excerto da Folha 27-A Vila Nova de Ourém da Carta Geológica de Portugal com a localização da exsurgência em seta branca.

A exsurgência tem carácter temporário apresentado água apenas parte do ano (o período de funcionamento da exsurgência está actualmente em estudo).

G. Manuppella et al. 2000 refere, de entre as nascentes temporárias com o mesmo condicionamento estrutural da nascente do rio Almonda, as nascentes de Rexaldia e Fungalvaz. A exsurgência de Pena de água será uma destas, tendo de facto um condicionamento estrutural semelhante ao da nascente do Almonda.

Apesar das semelhanças de condicionamento estrutural das nascentes (contacto entre formações do jurássico médio do M.C.E. e as formações Mesogenozóicas da Bacia terciárias do Tejo), estas distam cerca de 10km.

Historial

Rexaldia, vila mais próxima da exsurgência, tem como origem de seu nome, a passagem de um rei mouro (Rex-al-dia), que significa “Aldeia do rei”. Mas a historia desta vila não se fica por aqui. Foram encontrados em camadas pouco profundas nesta zona vestígios da época do Neolítico, ou ainda do Paleolítico Superior, mas também da ocupação romana e também das invasões francesas.

Com respeito a exsurgência da Pena de água, foram feitas algumas intervenções, temos conhecimento de uma intervenção efectuada por Sr. Manuel Soares (espeleólogo), em meados da década de 1980, com o intuito de perceber o relacionamento com a nascente do Almonda.

Mais tarde, no inicio de 1990, o proprietário do terreno, Sr. Carlos Pena, com a ajuda da junta de freguesia da Rexaldia, fez uma intervenção com máquina de martelo pneumático tentando chegar ao interior da nascente. Segundo o próprio os trabalhos foram interrompidos, por ficar tudo alagado.

Posteriormente o trabalho efectuado pela S.T.E.A. (Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia), em 1992, com o intuito de ter acesso às fissuras parcialmente colmatadas, que em Invernos chuvosos se denunciavam através da saída de água e deste modo, verificar a possibilidade de exploração espeleológica dessas cavidades.

Estes trabalhos, realizados em 1992, revelaram a presença de um depósito arqueológico, cujo potencial foi reconhecido por João Zilhão, que entretanto visitara o local a pedido da S.T.E.A. Com efeito, nas terras removidas pela retroescavadora utilizada para o efeito, surgiu cerâmica pré-histórica e pedra lascada; a observação dos cortes efectuados pela máquina permitiu, por seu lado, confirmar a existência de estratos com vestígios de ocupação humana até uma profundidade de cerca de 5 m.

Foto da área de escavação em 1992.

Foto da área de escavação em 1992.

Uma descrição sucinta deste sítio foi já apresentada a propósito da crono-estratigrafia do Neolítico regional (Zilhão e Carvalho, 1996). Temos também conhecimento por contacto, nomeadamente com Sr. Carlos Pena (proprietário do terreno), da descoberta de cadáver de soldado da época das invasões francesas por seu pai e entregue à câmara de Torres Novas. Existem também relatos do uso da gruta da Rexaldia como esconderijo para deserção pelos conterrâneos, na 1ª guerra mundial.

Trabalhos efectuados

Como espeleólogos o nosso principal objectivo é termos acesso ao oco que faz brotar esta força de água. Sabemos de antemão que a tarefa não se aparenta fácil, pois o calcário está muito fracturado e colmatado. Seguimos um método diferente ao efectuado pela S.T.E.A., pois os vários Invernos rigorosos puseram a nu uma fractura na base do Arrife, que por debitar bastante água nos chamou a atenção.

Entramos pela fractura em busca do desconhecido, tentando perceber de que direcção vem a água.

Aspecto no inicio da intervenção. Foto do local e da fractura na base do Arrife.

Aspecto no inicio da intervenção. Foto do local e da fractura na base do Arrife.

pika

Panorâmica do local a 19-1-2014

Os trabalhos têm sido árduos e demorados. Conseguimos entrar na fractura alargando o seu interior e percebendo que ao contrário do anteriormente pensado, a água não vem de frente mas sim da direita (Este). De momento pouco mais se pode fazer, pois só com a diminuição do caudal se pode continuar com a desobstrução.

Aspecto actual da intervenção. Foto da fractura já aberta e da desobstrução no interior.

Aspecto actual da intervenção. Foto da fractura já aberta e da desobstrução no interior.

Panorâmica do local em 26-4-2014.

Panorâmica do local em 26-4-2014.

No exterior, com a pedra que se tem retirado, fizemos um passadiço evitando assim lamaçal da nossa passagem. Limpámos também o matagal junto à linha de água, com ajuda dos conterrâneos e para grande satisfação do Sr. Carlos Pena.

Assim tem sido os dias neste belo local a beira do Arrife plantado.

 Texto elaborado por: André Reis, Hélio Frade, Paulo Rodrigues e José Ribeiro.
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~ por Membro Ferrugento em 1 / 05 / 2014.

5 Respostas to “Abrigo da Pena de água”

  1. estou muito orgulhoso! (só estou a dizer a pedido de um chouriço famoso)

  2. Olá

    Quando voltarem a estas bandas, contactem me para masg.business@gmail.com.

    Terei todo o gosto em aprender algo, sobre o local e claro para vos ajudar no que puder.

    Cumprimentos,

    Marco Gonçalves

  3. Amigo Marco quando voltar-mos vamos contactar te na certeza, mas sabes como são estas coisas nem sempre a tempo e disponibilidade apesar de haver muita vontade

  4. A direção da STEA, após ter tido conhecimento do texto relativo ao historial dos trabalhos realizados na exsurgência da Pena de Água – Rexaldia em Torres Novas, vem desta forma esclarecer alguns dados incorretos.
    Os primeiros trabalhos de desobstrução nesta exsurgência, foram realizados pela STEA em 1990, no âmbito de um projecto para aquela área do maciço.
    No início dos trabalhos, e dada a espessura dos depósitos de vertente e a existência de grandes blocos de abatimento, a STEA solicitou na altura apoio à Câmara Municipal de Torres Novas e à Junta de freguesia da Chancelaria, tendo então a Câmara concordado em fornecer a retroescavadora, a Junta pagar o gasóleo e a STEA pagar ao manobrador.
    Ao senhor pena, foi solicitada a autorização para se proceder aos trabalhos, uma vez que a exsurgência se localiza na sua propriedade.
    Foram realizadas várias campanhas sem que tenha sido possível entrar no sistema e aceder a qualquer galeria, apesar de terem sido identificados vários pontos de saída de água.
    Durante estes trabalhos, foram identificadas camadas arqueológicas in situ, o que veio a condicionar a continuação dos trabalhos de desobstrução, tendo-se iniciado algum tempo depois, campanhas de escavações arqueológicas que duraram vários anos.
    Devido a esta condicionante, e associado ao facto de a temperatura da água indiciar a sua proveniência, de galerias em profundidade, a STEA direcionou o seu projeto de trabalhos para outras cavidades, o que fez com que este ficasse em standby até aos dias de hoje.
    Atualmente, a STEA em conjunto com outras entidades encontra-se a ultimar um novo projeto espeleo-arqueológico sobre aquela área do arrife e particularmente sobre a exsurgência, que deverá ter início no último trimestre de 2014.
    A STEA, obviamente encontra-se recetiva a alargar as parcerias para a execução deste projeto quer com outras entidades, associações ou espeleólogos em particular.
    20.6.2014 João Mauricio

  5. Caros colegas espeleólogos, tendo lido o historial aqui exposto dos trabalhos realizados na exsurgência da Pena d’Água, venho corrigir o último comentário feito pela direcção da STEA e repôr a verdade dos factos, assim como divulgar mais alguma informação que poderá permitir redirecionar os trabalhos com vista a uma maior eficácia.
    A primeira intervenção/tentativa de desobstrução foi realizada pela SAGA com recurso a uma retroescavadora, contratada pelo dono do terreno a nosso pedido. Não havia á data qualquer vestígio de o terreno ter sido alguma vez mexido. A tentativa incidiu sobretudo na saída de água mais à direita (quem está de frente para a falésia) onde tem sido feita a recente tentativa de desobstrução, sendo que era esta a única que à data emitia qualquer caudal (as outras fendas estavam completamente colmatadas e só foram posteriormente expostas pela escavação arqueológica). Foi retirado um enorme volume de terras, e, nesse mesmo dia, foram identificados vestígios arqueológicos, tendo sido por este motivo interrompida a intervenção da máquina. No fim de semana seguinte um elemento da STEA, Ricardo Rodrigo, que participava frequentemente nos nossos trabalhos, confirmou a presença de material lítico e cerâmico, e foi decidido pedir á STEA para se deslocar ao local para uma avaliação do potencial arqueológico.
    Face à verificada importância arqueológica do local, os trabalhos de desobstrução foram interrompidos até que uma escavação formal fosse concluída.
    De notar que no período dessa primeira tentativa de desobstrução, feita durante uma muito forte cheia, com enormes caudais em todas as exsurgências da região, verificou-se existir uma exsurgência nos terrenos cultivados abaixo da Pena d’Água, cujo caudal seria porventura, senão superior, pelo menos igual ao verificado nesta, que está mais de uma dezena de metros acima! Esta exsurgência, totalmente fora dos calcários, foi rapidamente tapada pelo proprietário do terreno e, tanto quanto nos foi dado verificar, não terá nunca mais emitido… , comprovando o caracter excepcional das cheias desse ano. Não existem hoje vestígios do local desta exsurgencia e só o dono do terreno se lembrará, porventura, do local exacto da mesma.
    O nível desta saída de água extemporânea, corresponderá eventualmente á cota em que se poderá encontrar uma entrada viável da exsurgência da Pena d’Água… Seria assim necessário aprofundar os sedimentos junto á nascente entre 10 a 15 metros para conseguir penetrar.
    Qual a explicação para este fenómeno e como é possível a entrada principal original estar por debaixo de sedimentos tão antigos?
    Possivelmente esta nascente terá sido perene há algumas centenas de milhares de anos (encontrámos tufos calcários 15 a 20 metros abaixo da presente cota da nascente o que atesta esta hipótese). Com o evoluir do nível de base imposto pela nascente do Almonda, a maior parte do caudal terá sido captado por este sistema, no qual acabou por ser integrado, constituindo agora um pequeno “trop-plein” do mesmo. Devido a longos períodos de menor precipitação e de movimentos de avanço do cavalgamento, a entrada original foi sendo “entulhada” sem que o caudal eventualmente existente fosse suficiente para garantir um leito desimpedido que, através da erosão normal, acompanhasse a descida do nível de base e mantivesse a boca da nascente aberta. A erosão e a continuada acção da agricultura nos terrenos abaixo durante os últimos milénios terão certamente contribuído para o completo desaparecimento do leito da antiga nascente.

    João Neves
    SAGA

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