O encanto do Supramònte…


Crónicas espeleológicas I
Toca o telefone, atendo:
– Olha, vamos para a Sardanha, já te comprei o bilhete, agora se não quiseres vir, é contigo!
Assim começou o preparativo para a viagem espeleológica à Sardanha
No ano passado fomos ao “Icnussa 2009 – Raduno Speleologico Nazionale”, ou seja, o Congresso Nacional de Espeleologia Italiano.
https://i0.wp.com/www.icnussa2009.it/logo_500.jpg

Desligo o telefone e começo a pensar:
Ora, ora, ora, ora: Sardanha!? … coincidi com um espeleólogo Sardo numa expedição aos Alpes Franceses em 2006, vou-lhe mandar um email a perguntar dados espeleo(métricos/lógicos) e a dizer que chegamos para a semana a essa ilha mediterrânica.

A resposta não se fez esperar:

– Finalmente vêm à Sardanha! Vou-vos receber ao aeroporto e vamos à grotta du Su Palu.

Claro está que, ‘Sú Pálu’, eram duas palavras que não nos diziam absolutamente nada! Ao bom estilo espeleológico académico: meia bola e força – vamos embora, que quando lá chegarmos logo se vê o buraco onde nos vamos meter.
O nosso companheiro Sardo (os autóctones da Sardanha chamam-se Sardos e falam Sardo, que não é sotaque, é língua oficial), tinha os seus afazeres normais de um vulgar dia laboral de professor de direito, mas nada o demoveu de nos receber no aeroporto e nos levar a almoçar à praia de Cagliari (Cálhiári).

Ficheiro:Cala Goloritze o.jpg
Belas vistas, solinho, areia amarela, águas azuis, tudo muito bonito, mas nós queríamos mesmo era: CARSO!
Fomos buscar o fantástico carro e marchámo-nos a Urzulei, que se
fazia tarde e o SpeleoBar já estava montado!

Três horas de condução separam a capital Sarda do início do maciço do Supramònte, onde os calcários se erguem sobre granitos a uma altitude que supera os 1000m.

Aqui abro um parêntesis para dizer que as vistas são impressionantes, grandes falhas condicionam o relevo elevando magníficos planaltos que infiltram a precipitação mediterrânica, armazenando-a e devolvendo-a ao mar uns ‘metritos’ abaixo.

Ficheiro:Forra gorroppu.jpg
Deu tempo para nos registarmos no evento, levar com a pulseirinha que te identifica como espeleoparticipante e surge o drama, o pânico: – todas as visitas às grutas estavam “compliti” e não havia espaço para nós!

Entre a depressão e a expectativa de que tudo se resolveria e haveria qualquer vaga numa visita a um magnífico sistema espeleológico para nós – rumámos ao SpeleoBar!

Não é muito difícil imaginar a ementa quando se está em Itália: Pasta com um somítico molhinho de tomate! Uma sandes de presunto, pão Sardo (sim, eles chamam pão a uma espécie de lâmina de bolacha de água e sal, com farinha).


Rever conhecidos, abraçar os amigos e vamos montar a tenda que já são 4 da manhã e a esta hora torna-se mais difícil, e já temos uma baixa técnica por sono (meninos!).
A esta hora da noite qualquer espeleólogo que se preze, tem as suas fontes de luz no fundo da mochila de transporte de material (comprimida, para que tudo coubesse no porão do avião), mas para que é que um espeleólogo precisa de luz?
Para montar uma tenda?
de noite?
Por favor, nós não precisamos de luz, vê-se tão bem!
… e meia hora bastou, entre: – está calado, estás-te a rir demasiado alto, vais acordar os vizinhos, ahahaha, não caias para cima da tenda, ahaha!
Sono reparador, beleza restituída e quando acordo, já o sol estava a pique, a tenda estava vazia com um bilhete: – Estamos no SpeleoBar, quando acordares apita!

Bem chega de historinhas, vocês querem saber é das grutas. Não é verdade?

Dia 1 de Maio, 9 da manhã: SpeleoBar, chega o nosso amigo Sardo com outro amigo, azimute marcado: sistema espeleológico Cala Luna, Grotta du Su Palu.

As palavras são poucas para definir a beleza, o deslumbre e o pasmo que se nos apresentou delante nessa magnífica, e porque não dizê-lo, ESPECTACULAR gruta.

Su Palu 3
A entrada era estreita… na margem do leito do rio Palu, encostadinha à escarpa vertical de quase 1000m de CARSO do melhor. Digamos que uma entradita da treta que mais parecia uma lapa da arrábida, não faria adivinhar o que se seguiria. Cruzámo-nos com o típico crowd dos encontros espeleológicos nas melhores grutas do entorno. Meia hora de espera num ressalto do poço para deixar passar os suíços, outra meia hora numa estreiteza para deixar passar os italianos e finalmente chegamos à primeira sala. No fundo da primeira sala aparecia um pequeno fio de água, não há dúvidas: é por ali.
Os nossos amigos sardos começam a rir, uma mistura de sadismo e masoquismo, como quem sabe que nos vai fazer passar por um sítio desagradável e que sabe que terá que passar pelo mesmo. O rio subterrâneo estreita. Estreita muito. Digamos que apenas ficam 5 dedos de ar até ao tecto e que a parte submersa é à justa para o corpo.
Não havia dúvidas, aquele era o único caminho que nos levaria à parte interessante da gruta. Nestas alturas, duvidamos sempre se vale a pena.
A água está a cerca de 15ºC. Senhores e senhora está na hora de despir e meter a roupa seca nos sacos estanques (porque os bidons não passam por ali).
Apesar de 15ºC não ser água fria para um espeleólogo, a verdade é eu tremia, gritava, gemia, empurrava o saco que o amigo sardo tinha deixado pelo caminho e tentava o mais rápido possível, qual minhoca apurada, sair da água. Cerca de 5 metros depois acaba o tormento e abre-se a “sala do vestiário” (sim, porque os espeleólogos são muito pouco criativos no que toca a escolher nomes para as salas, em qualquer parte do mundo).

– Qual é o prazer de uma passagem subterrânea deste estilo?
– Ver a cara dos teus amigos a passar por ali, depois de tu teres passado! ahahah e perguntar-lhes: – Adoras as grutas não é verdade? (Podeis imaginar a resposta assim a quente, ou melhor dito, assim a frio.)

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Lá deixámos a roupa interior a secar, vestimos os fatinhos e ála que se faz tarde.

Depois de passado o sifãozinho abre-se a maravilha:

Su Palu 6
– galerias com mais de 70 metros de altura nas quais é preciso contornar blocos caídos do tecto da altura de edifícios de 3 pisos;
– salas onde se juntam 3 rios subterrâneos;
– cascatas, daquelas que se deixa de ouvir o companheiro do lado;
– galerias escavadas em calcário branco imaculado, por onde escorre um rio subterrâneo que assenta em granito escuro;

Su Palu 4
– salas com gours gigantes de moonmilk, que escorregam à brava, é divertidíssimo;
– mais rios subterrâneos;
– subir; corrimãos suspensos; cascatas por baixo; descer;
– caminhar pelo rio;
– cruzar com outras equipas;
– lagos subterrâneos e-nor-mes, com cascatas a cair sobre a água;
– um bivac para descansar e comer.

Enfim, a gruta do Su Palu, tem de tudo… e como podem imaginar, tem também a saída, que só por acaso é também a entrada. Feitas as contas tivemos que volver a passar no mesmo sifão. Ao todo foram menos de 8 horas debaixo de terra.

Saímos com uma alegria estampada na cara! Nós, pela maravilha espeleológica por onde tínhamos passeado durante todo o dia e os sardos por ver a nossa alegria e porque é sempre agradável mostrar, contar e desfrutar das explorações, especialmente com amigos de fora.

Deslumbrados pela gruta do Su Palu, regressámos ao SpeleoBar, onde seguiu noite dentro a festa espeleológica, e deixem-me que vos diga, que os italianos não brincam em serviço…

Os dias seguintes foram dedicados a questões burocráticas, desfazer a tenda, rumar ao aeroporto entre muitas cantorias no carro e (claro) a conversas sobre as experiências espeleológicas de cada um…

Só há uma coisa que o espeleólogo gosta mais que as grutas: – falar delas!


Um abraço a todos e até breve,

M007

(Membro Secreto)

PS – Todos os factos relatados nesta crónica, podem perfeitamente ser pura ficção… ou não!

Para mais informações consultar: CAVES AND KARST AQUIFER DRAINAGE OF SUPRAMONTE (SARDINIA, ITALY): A REVIEW

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~ por Membro 007 em 6 / 05 / 2010.

4 Respostas to “O encanto do Supramònte…”

  1. Até que enfim está ca fora este “post”. Ficou bem maturado e encorpado com uns toques de humor.

  2. Epá este estava em cascos de carvalho, parabéns e gostei de te ver de volta.

  3. fantástico, muito bom!!

    Ab, Loia

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