Algares do cabeço dos Alecrineiros XXIV


Ribeiro, José: 1,2; Lopes, Samuel: 1,4;Rodrigues, Paulo: 1,2,3

1)- – Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua Maria Veleda, 6, 7ª Esq, 2560-218, Amadora, Portugal 

(2)- Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares 

(3)- Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia 

(4) Wind -CAM- Centro de Actividades de Montanha, Rua Eduardo Mondlane, lj44, 2835-116 Baixa da Banheira

Introdução

Um terrível incêndio devastou  parte da Serra de Aire e Candeeiros no final do verão, deixando a zona dos Cabeços dos Alecrineiros maioritariamente queimada com um aspeto desolador, mas ao mesmo tempo expondo as bancadas de lapiás e novas possibilidades.

Muita prospeção fizemos e muito quilometro “palmilhamos” em zonas onde até então era impossível aceder e não se pense que foi fácil pois mesmo com a vegetação queimada o terreno é muito irregular e mesmo queimados os troncos dos carrascos dão muita luta. Valeu bem o esforço pois encontramos vários algares que partilhamos para o conhecimento geral.

A saber, Algar da Cratera, Algar da Cratera II, Algar da Pedra Torta, Algar Cabrum e Algar Éla.

Figura 1 – Localização dos algares, tendo como referencia o estradão que provem do cruzamento conhecido na zona como “Os 4 caminhos”, assinalado com seta vermelha.

Adverte-se também e mais uma vez que para sua protecção e da própria cavidade o espeleólogo tem de ter obrigatoriamente formação!!!

Algar da Cratera

Na primavera tínhamos andado bem perto deste algar, mas a vegetação era tão densa que não conseguimos sequer lá chegar perto, agora sim e valeu bem a pena!!!

Figura 2 – Foto da entrada do Algar da Cratera (Foto de Filipe Castro – GEM).

Descrição:

O algar abre-se à superfície com uma boa abertura, fazendo lembrar uma “Meia Bajanca”, algar bem conhecido da maioria dos espeleólogos e por nós aqui já publicado. Tem aproximadamente 12 m X 6 m, sendo a descontinuidade no sentido NO – SE. Segue-se poço com 27 m, este estreita conforme se desce, as suas paredes são lisas com alguns blocos bem presos e o musgo ali existente dá-lhe um aspeto muito bonito. A cerca de 16 m da entrada grande bloco ali “entalado”, com bom patamar. Dai acedemos à base do poço, sendo esta de calhaus de varias dimensões e argila. A sua inclinação é inicialmente acentuada, no sentido NNO – SSE, a meio da base vira no sentido ONO – ESE, sem inclinação. Olhando para cima temos um deslumbre de grande beleza, observando-se o teto com duas aberturas separadas pelo grande bloco e as paredes forradas de musgo e os vários tons da pedra, muito bom!!!

Sensivelmente a meio da base temos pequena abertura no sentido NE – SO, onde após um pequeno destrepe de 2 m, chegamos a zona mais funda do algar, que está preenchida de muito calhau, terminando ai a nossa exploração.

Detetámos muita vida dentro deste algar:  Morcegos, salamandras, vários insetos e efetuámos o resgate do musaranho solitário.

Geologia:

A gruta aparenta ter um controlo estrutural por uma família de fraturas de direcão grosseira NW – SE, com inclinação subvertical. As camadas regionalmente têm direção aproximadamente NW – SE e inclinação suave para Sul- . A gruta desenvolve-se em calcários da formação de Calcários Mícriticos da Serra de Aire, datada do Batoniano do Jurássico Médio. A gruta aparenta tratar-se de um “vadose shaft” de acordo com a definição de Baron, 2003, apresentando caneluras de dissolução, sendo estas grutas com desenvolvimento essencialmente vertical que conduzem a água do epicarso para as zonas mais profundas do carso.

Presente:

Que espetacular o nosso inicio de atividade, foi de facto uma supresa tão agradável, foi de encher a alma e estava ali tão perto e tão inacessível antes deste terrível incendio, enfim……

Bom esta feito, e olhem não posso de deixar de falar da grande e ferrugenta armadilha de animais de grande porte que para ali foi atirada, a espera que os séculos a consumam e claro do resgate do pequeno musaranho que assim que o libertamos ao Sol, depois de alimentado com um pedaço de maça ali ficou a saborear o calor que tanta falta lhe fazia.

Figura 3,4 – Planta e perfil desdobrado do Algar da Cratera.

Planta do Algar da Cratera em pdf para download

Algar da Cratera Planta

Perfil desdobrado do Algar da Cratera em pdf para download

Algar da Cratera Perfil desdobrado

Ficha de equipagem do Algar da Cratera em pdf para download

F.E.Algar da Cratera

Fotos do Algar do algar da Cratera (Fotos: António Afonso – ARCM).

Algar da Cratera II

Este estava mesmo ali ao lado, na mesma bancada de lapiás, toda a minha gente a trabalhar……

Figura 5 – Foto da entrada do Algar da Cratera II (Foto de António Afonso – ARCM).

Descrição:

A entrada do algar não é uniforme, mas na generalidade tem aproximadamente 6 m X1,5 m, no sentido ONO – ESE, a 4 m da superfície há um patamar que ocupa grande parte do poço, estando preenchido com blocos de vários tamanhos, no canto mais a ONO, prolonga-se o poço até a profundidade de 20 m, tendo algumas reentrâncias no seu desenvolvimento, mas sem continuidade verificada. A base tem inclinação no sentido ESE, de pouca dimensão com cerca de 2 m X 2 m, é de cascalheira e argila. Segue-se uma bifurcação, no sentido SO – NE, após pequeno ressalto temos pequeno oco em que se consegue estar de pé com fundo de cascalheira em que a parede a NE tem formas de reconstrução. Já no sentido ESE, o algar desenvolve -se um bom par de metros depois de ultrapassar ressalto de 2 m, zona mais estreita no sentido de progressão até se chegar a uma barreira de pedra de onde se deslumbra poço apertado de 6 m. A base é de argila e cascalheira, nesta pequena sala se assim lhe podemos chamar, verificamos um inicio de desobstrução no sentido NNE, depois de terminarmos a desobstrução nova pequena sala rica em formas de reconstrução, base de argila e algumas pedras da própria desobstrução, segue no sentido NNE, subindo e afunilando, terminando ai o algar.

Geologia:

A gruta aparenta ter um controlo estrutural por uma família de fraturas de direcão grosseira NW-SE, com inclinação subvertical. As camadas regionalmente têm direção aproximadamente NW – SE e inclinação suave para Sul . A gruta desenvolve-se em calcários da formação de Calcários Mícriticos da Serra de Aire, datada do Batoniano do Jurássico Médio. A gruta aparenta tratar-se de um “vadose shaft” de acordo com a definição de Baron, 2003, apresentando caneluras de dissolução, sendo estas grutas com desenvolvimento essencialmente vertical que conduzem a água do epicarso para as zonas mais profundas do carso.

Presente:

E já está mais um, deu trabalho sim, verificamos pela desobstrução que já ali tinha estado alguém não sabemos quem, pois no Cadastro Nacional de Cavidades não havia qualquer referencia, mas agora já há!!!!

E fica aqui publicado e partilhado para o conhecimento de todos os espeleólogos, para que os trabalhos não se repitam.

Figura 6,7 – Planta e perfil desdobrado do Algar da Cratera II.

Planta do Algar da Cratera II em pdf para download

Algar da Cratera II Planta

Perfil desdobrado do Algar da Cratera II em pdf para download

Algar da Cratera II Perfil desdobrado

Ficha de equipagem do Algar da Cratera II em pdf para download

F.E.Algar da Cratera II

Fotos do Algar do algar da Cratera II (Fotos: António Afonso – ARCM, Rute Santos – GEM).

Algar da Pedra Torta

Mais um dia de prospeção e já numa zona mais a Oeste, uns quantos algares para se trabalhar, divisão de equipes e siga…..

Figura 8 – Foto da entrada do Algar da Pedra Torta (Foto de Pedro Fazenda – NAMMI/AESDA).

Descrição:

Este algar tem duas pequenas entradas, desobstruímos uma que nos pareceu melhor, retirámos a pedra torta e não se pense que foi fácil. Ficando a pequena entrada com cerca 0,5 m X 0,3 m, aproximadamente. Segue-se poço de 3 m, a base de muita argila e alguns calhaus, zona já mais larga com cerca de 1,5m. No sentido E, pequeno corredor que vira no sentido NNE, ai termina após rampa  de argila, afunilando até a outra entrada. Já no sentido S, observa-se uma fenda que nos leva a poço de 8 m. Por cima uma prateleira com vários blocos onde se vê passar a luz do Sol, em baixo a fenda apertada, que após ultrapassada e já no poço se verifica descontinuidade no Sentido SE.  A base tem inclinação no sentido NO, é de muito calhau, terminando ai o algar.

Geologia:

A gruta aparenta ter um controlo estrutural por duas famílias de fraturas de direcão grosseira NW-SE e NE-SW, com inclinação subvertical. As camadas regionalmente têm direção aproximadamente NW – SE e inclinação suave para Sul . A gruta desenvolve-se em calcários da formação de Calcários Mícriticos da Serra de Aire, datada do Batoniano do Jurássico Médio. A gruta aparenta tratar-se de um “vadose shaft” de acordo com a definição de Baron, 2003, apresentando caneluras de dissolução, sendo estas grutas com desenvolvimento essencialmente vertical que conduzem a água do epicarso para as zonas mais profundas do carso.

Presente:

Pequeno mas de trabalho, aquela base do poço final percebe-se que pode continuar mas é um trabalho de desobstrução lixado, pois não há espaço para colocar os calhaus, enfim mais um!!!

Figura 9,10 – Planta e perfil desdobrado do Algar da Pedra Torta.

Planta do Algar da Pedra Torta em pdf para download

Algar da Pedra Torta Planta

Perfil desdobrado do Algar da Pedra Torta  em pdf para download

Algar da Pedra Torta Perfil desdobrado

Ficha de equipagem do Algar da Pedra Torta em pdf para download

F.E.Algar da Pedra Torta

Fotos do Algar do algar da Pedra Torta (Fotos: Teresa Cardoso – GEM).

Algar do Cabrum

Este foi noutro dia, noutra aventura, apesar de pequeno deu que fazer, mesmo depois do fogo o silvado não ajuda nada!!!

Figura 11 – Foto da entrada do Algar Cabrum (Foto de Filipe Castro – GEM).

Descrição:

O algar tem uma entrada bastante “irregular”, com cerca de 1 m X 1 m, com um bloco a dividir em duas passagens, segue-se um poço de 5 m, a base é de cascalheira e muita argila desenvolvendo-se no sentindo E – O, na zona mais a O, pequeno patamar terminando ai este pequeno algar.

Geologia:

A gruta aparenta ter um controlo estrutural por uma família fraturas de direcão grosseiraE-W, com inclinação subvertical. As camadas regionalmente têm direção aproximadamente NW – SE e inclinação suave para Sul . A gruta desenvolve-se em calcários da formação de Calcários Mícritos da Serra de Aire, datada do Batoniano do Jurássico Médio. A gruta aparenta tratar-se de um “vadose shaft” de acordo com a definição de Baron, 2003, apresentando caneluras de dissolução, sendo estas grutas com desenvolvimento essencialmente vertical que conduzem a água do epicarso para as zonas mais profundas do carso.

Presente:

Este até prometia olhando assim de cima antes de desbastar-mos o silvado queimado. Mas como muitos outros “foi sol de pouca dura”, paciência já esta cadastrado e aqui publicado!

Figura 12,13 – Planta e perfil desdobrado do Algar Cabrum.

Planta do Algar Cabrum em pdf para download

Algar Cabrum Planta

Perfil desdobrado do Algar Cabrum  em pdf para download

Algar Cabrum Perfil desdobrado

Ficha de equipagem do Algar Cabrum em pdf para download

F.E.Algar Cabrum

Fotos do Algar do algar Cabrum (Fotos: Filipe Castro – GEM).

Algar Élá

Que belo final de dia, depois de um dia inteiro a vasculhar recantos de “pedra branca e pau queimado”, ali estava ele a nossa espera, sereno como mais uma era se passasse….

Figura 14 – Foto da entrada do Algar Élá (Foto de Filipe Castro – GEM).

Descrição:

Na base de uma pequena elevação,  boa bancada se assim lhe podemos chamar e abre-se o algar à superfície, abertura com aproximadamente 2 m X 1 m, no sentido ONO – ESE. Segue-se poço de 7 m, a base de cascalheira e argila, o teto nesta zona mantem a mesma forma, a frente no mesmo sentido rampa de 10 m, alargando aqui o algar um pouco. Uns metros a frente recanto com formas de reconstrução no sentido NE, já o chão inicialmente tem inclinação no sentido SSO, mas vira para SE, é aqui de muito calhau de varias dimensões. Terminando aqui a zona de rampa com ressalto, na base pequeno oco no sentido NNO, já a frente um bom bloco totalmente colmatado de calcite e com bela coluna e estalactites de varias dimensões, de referir que aqui o teto desceu bastante em relação a zona inicial. Aqui o algar tem boa largura. A SO, zona de teto baixo em que o chão de muito calhau na zona final “encosta” a teto, não sendo possível qualquer progressão. Olhando para SE, verifica-se poço de 3 m de pouca dimensão sendo o fundo de argila e algumas ossadas. No mesmo sentido mas um pouco a esquerda em progressão, belo patamar com ricas e variadas formas de reconstrução sobressaindo as estalagmites. Zona em que se avança subindo, as paredes são forradas maioritariamente de calcite, excetuando zona a NE, uma reentrância com bom blocos e argila. Aqui o algar vai “afunilando, muita estalactites e estalagmites, o chão de calcite e uns belos e pequenos gours. Segue-se passagem estreita com subida em ressalto de 2m. Verifica-se grande alteração no algar pois as paredes são de pedra “nua”, chão de argila com inclinação no Sentido ONO, contrario a direção de progressão. Estamos numa zona de conduta forçada, que segue uns bons metros terminando a frente o algar na zona mais a ESE, com pequena bancada de calcite e argila.

Geologia:

A gruta apresenta algumas características compatíveis com uma gruta de origem freática, como o seu desenvolvimento sobretudo horizontal, as formas arrendondadas das paredes e o que poderão ser vagas de erosão. A gruta desenvolve-se em calcários da formação de Calcários Mícriticos da Serra de Aire, datada do Batoniano do Jurássico Médio.

Presente:

Foi realmente um “Élá”, é sempre bom encontrarmos nesta zona um algar com estas características diferentes do habitual de poço atras de poço, apesar de pequeno tem de tudo um pouco e de referenciar que se situa em zona de falha. Detetamos guano na zona de conduta forçada mas pouco e aparentemente com muito tempo.

Figura 15,16 – Planta e perfil desdobrado do Algar Élá.

Planta do Algar Élá em pdf para download

Algar Élá Planta

Perfil desdobrado do Algar Élá  em pdf para download

Algar Élá Perfil desdobrado

Ficha de equipagem do Algar Élá em pdf para download

F.E.Algar Élá

Fotos do Algar do algar Élá (Fotos: Filipe Castro – GEM).

Texto: José Ribeiro    Geologia: Paulo Rodrigues.

Abraço.

~ por josechourico em 14 / 01 / 2021.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: