Geologia do Algar da Figueira


Por: Paulo Rodrigues.

 Localização

O algar da Figueira situa-se na localidade de Moitas Vendas, concelho de Alcanena. A boca abre-se a meio de uma vertente a uma cota de cerca de 245 metros. O acesso faz-se por um caminho de pé posto, que segue vertente acima a partir de uma estrada à saída de Moitas Vendas.

A gruta foi topografada numa actividade realizada a 6 de Setembro de 2014 e em que participaram por ordem alfabética: Bruno Pais (AES/GEM), Florbela Silva (AES/GEM), João Pereira (GEM) Paulo Rodrigues (GEM/NALGA), Sandra Lopes (GEM/CEAE-LPN).

Descrição

 A gruta tem 3 poços que permitem a entrada, sendo o acesso geralmente feito apenas por dois deles, marcados na topografia como P15 e P20. Os poços dão acesso a uma sala de dimensões consideráveis, a sala Grande, com vestígios de grandes abatimentos, a partir da qual se tem acesso a uma zona da gruta que conserva ainda alguma da morfologia original, a zona SE. 

Foto 1 – Um dos poços de entrada (Foto: Samuel Lopes)

Foto 1 – Um dos poços de entrada (Foto: Samuel Lopes)

Biologia

A gruta apresenta alguns morcegos no seu interior.

Espeleometria

Em relação à espeleometria a gruta tem uma profundidade de cerca de 29 metros e um desenvolvimento de 235 metros.

Algar_da_Figueira_Planta_GEO

Algar_da_Figueira_Perfil

Enquadramento geológico

O algar da Figueira desenvolve-se segundo a Folha 27-C da Carta geológica de Portugal à escala 1/50000 na formação de Margas e Calcários Margosos do Zambujal datada do Aaleniano Inferior a Bajociano Inferior (Jurássico Médio).

Foto 2 : A sala grande (Foto: Vitor Amendoeira)

Foto 2 : A sala grande (Foto: Vitor Amendoeira)

 Controlo estrutural

O controlo estrutural do desenvolvimento está disfarçado pelos abatimentos que ocorreram na gruta, sobretudo na zona da sala Grande. A zona SE tem troços que apresentam um controlo estrutural por fracturas de atitude aproximada N40W/Vertical e N50E/Vertical. Dois dos poços que dão acesso à gruta (P25 e P15) são controlados por fraturas da família N50E/Vertical e o terceiro (P20) por uma fractura N40W/Vertical. Os poços aparentam ter sido formados de baixo para cima devido à água ascendente. A gruta tem um desenvolvimento grosseiro NW-SE, próximo da atitude das camadas N50W/30S (valores medidos no exterior e interior da gruta), o que poderá indicar um controlo da gruta pela direcção das camadas, o que se sabe acontecer em troços das grutas freáticas da região, como as grutas da Contenda e do Mindinho.

Foto 3 – Um outro poço de entrada (Foto: Vitor Amendoeira)

Foto 3 – Um outro poço de entrada (Foto: Vitor Amendoeira)

 Sedimentos

Em relação aos sedimentos, o cortejo litoquímico é impressionante. Abundam colunas, estalagmites, estalactites, alguns de grandeza de ordem métrica, e espessuras que chegam a ser superiores a um metro, mantos estalagmíticos, “flowstone” e cortinas. Os sedimentos detríticos são compostos por balastros provenientes dos abatimentos e que existem em maior abundância na sala Grande, alguma areia muito fina, que parece provir da alteração dos calcários e argila. A argila existe em maior abundância numa pequena galeria, situada na zona mais a Este da gruta, chegando a preencher nichos ao longo das superfícies de estratificação dos estratos calcários, indicando que o nível de argila já teve espessuras maiores e que poderá ter colmatado parte desta galeria.

Como nota refira-se ainda a presença abundante de ossos de animais, certamente vítimas de quedas nos poços e de guano.

Foto 4 – À esquerda na foto, uma das grandes colunas presentes na gruta (Foto: Vitor Amendoeira)

Foto 4 – À esquerda na foto, uma das grandes colunas presentes na gruta (Foto: Vitor Amendoeira)

 

Foto 5 – Uma das grandes estalagmites presentes na gruta (Foto: Samuel Lopes)

Foto 5 – Uma das grandes estalagmites presentes na gruta (Foto: Samuel Lopes)

  Génese

A gruta tem origem freática como é comprovado pela presença de vagas de erosão e aspecto arredondado das paredes. Quando a gruta se encontrava na zona freática e zona vadosa activa, segundo a definição de Bogli, 1980 a água deveria circular das zonas mais profundas da gruta, zona SE e eventualmente da extremidade Oeste para os poços, cujas bocas funcionava como surgências. Esta gruta testemunha assim uma antiga nascente, e um antigo nível de água que rondava a cota dos 220-230 metros.

Já Crispim, 1995, referia que esta gruta era uma antiga nascente associada à falha da Costa de Minde e a antigos níveis de circulação situados à cota 200 metros. Segundo este autor, as entradas mais elevadas podem ser considerados como nascentes de extravasamento, sendo a cota da exsurgência próxima de altitudes que frequentemente se encontram no Vale da Serra. O mesmo autor refere ainda que as grandes dimensões da cavidade se devem às condições particularmente favoráveis devido ao contacto com as fáceis margosas intercaladas longitudinalmente no Oxfordiano (cujas camadas afloram nas proximidades da gruta) e a proximidade do cavalgamento do Arrife.

Idade da gruta

Uma datação realizada por Crispim, 1995, numa estalagmite colhida na gruta, revela uma idade média da amostra entre 350 Ka e 1,25 Ma, o que aponta, segundo o mesmo autor, para a hipótese de no Gunz-Mindel ou Mindel a exurgência ter já funcionamento temporário.

Foto 6 – Detalhe do teto da gruta Foto: Samuel Lopes)

Foto 6 – Detalhe do tecto da gruta Foto: Samuel Lopes)

 Velocidade de circulação da água

Uma estimativa da velocidade de circulação da água na gruta foi obtida, tendo por base o comprimento das vagas de erosão das paredes da gruta. O cálculo foi realizado utilizando a:

Formula de Curl (Bögli 1980, após Curl 1966): (ρ/µ).vm.L=Rel,

na qual: Rel: número de Reynolds para as vagas de erosão, µ= coeficiente de viscosidade da água, ρ= densidade da água, D= diâmetro da galeria, L= comprimento médio das vagas de erosão. O valor de Rel foi extraído da tabela de Curl (1974) (considerando uma passagem de secção retangular) e um valor de velocidade cinemática de 0,014 (para uma temperatura da água de cerca de 15ºC (valor medido na água da zona freática numa outra gruta). Os comprimentos considerados para as vagas de erosão foram 0,4m e 1,5m, os valores extremos registados na cavidade, e a largura da secção 1,0m, para uma secção rectangular. Os resultados indicam velocidades de circulação entre os 0,5 e 1,8m/h.

Evolução da cavidade

Como foi acima referido a gruta tem origem freática, sendo uma exurgência fóssil, que testemunha um antigo nível de circulação ligeiramente acima da cota dos 200 metros. A gruta formou-se na zona freática, tendo posteriormente, por descida do nível de base ou por movimentações tectónicas passado para a zona vadosa semi-activa e finalmente para a zona vadosa inactiva. O processo não terá sido tão directo, uma vez que a argila que preenche nichos elevados na pequena galeria no estremo Este da gruta indica que a circulação freática poderá ter abandonado a gruta, ou pelo menos os níveis mais baixos, permitindo o preenchimento da galeria com sedimentos, para mais tarde com a descida do nível de base erodir o depósito de argila. O nível da água, no próximo polge de Minde, chega a ultrapassar actualmente durante as alturas de maior pluviosidade, por alguns metros, a cota 200, o que com um nível de base um pouco mais alto poderia explicar com facilidade sucessivos episódios de abandono/reactivação da circulação na gruta.

Referências Bibliográficas

Bögli, A. (1980). Karst Hydrology and Physical Speleology, Springer-Verlag, Berlin Heildelberg New York

Crispim, J.A (1995). Dinâmica Cársica e Implicações Ambientais nas Depressões de Alvados e Minde. Tese de Doutoramento em Geologia, especialidade de Geologia do Ambiente. Departamento de Geologia. Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa.

Manupella G., Telles Antunes M., Costa Almeida C.A., Azerêdo A.C., Barbosa B., Cardoso J.L., Crispim J.A., Duarte L.V., Henriques M.H., Martins L.T., Ramalho M.M., Santos V.F., Terrinha. P. (2000). Carta Geológica de Portugal à escala 1/50000 – Vila Nova de Ourém, Folha 27-A Notícia explicativa, Instituto Geológico e Mineiro, Lisboa.

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~ por Membro Ferrugento em 15 / 01 / 2015.

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