Alguns apontamentos de geologia sobre o algar das Gralhas VII


Rodrigues, Paulo: 1,2,3


1)- Grupo de Espeleologia e Montanhismo, Rua Maria Veleda, 6, 7ª Esq, 2560-218, Amadora, Portugal
(2)- Núcleo dos Amigos das Lapas Grutas e Algares
(3)- Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia, Estrada Calhariz de Benfica, 187, 1500-124 Lisboa

Introdução

O Algar das Gralhas VII situa-se nos campos de lapiás do Cabeço da Chainça, Pé da Pedreira, Santarém, no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC).

O CEAE-LPN realizou, com a participação de 4 outros clubes de espeleologia: GEM, AESDA, NEL e AES, entre Dezembro de 2012 e Junho de 2013, actividades de fotografia, topografia, exploração e geologia foram realizadas no Algar das Gralhas VII.

De acordo com CEAE, 2013 durante o projecto foi descoberta uma nova passagem e atingiu-se um novo ponto mais profundo. Todos os dados do levantamento topográfico foram medidos com dispositivos DistoX e software Pocketopo em PDA. Com estes métodos foi possível minimizar a propagação de erro na topografia, obtendo medições de alta precisão.

Tive a oportunidade de participar na realização dos trabalhos acima referidos e de durante os mesmos realizar o levantamento geológico da cavidade. A planta da gruta, que se pode encontrar no link:

http://www.lpn-espeleo.org/images/gralhasvii_visita_virtual/MAPA/plan.pt.html

tem representado esse levantamento.

O projecto fotográfico levado a cabo, que consiste numa visita virtual 360º à gruta foi Vencedor da Categoria ‘Interactive Presentation’ e prémio ‘Best of show’, Salão de Cartografia, do 16º Congresso Internacional de Espeleologia, BRNO 2013.

A visita virtual pode ser acedida através de:

 http://www.lpn-espeleo.org/images/gralhasvii_visita_virtual/START%20HERE.pt.html

Descrição da cavidade

De acordo com CEAE, 2013 o algar do Gralhas VII situa-se próximo da localidade de Pé da Pedreira, concelho de Alcanede, próximo do limite Sul do Planalto de Sto. António. A boca do algar VII abre-se num campo de lapiás de dimensões consideráveis, onde se encontram também as entradas de outras grutas.

Figura 1 – Localização da gruta em imagem de satélite

Figura 1 – Localização da gruta em imagem de satélite

Figura 1 – Localização da gruta em imagem de satélite

O algar das Gralhas VII é composto por um conjunto de 3 galerias de secção métrica que se cruzam entre si na base do poço de entrada. O poço de entrada tem cerca de 70m de profundidade e é na verdade composto por 3 poços ligados entre si. As galerias são chamados galeria do Laminador com desenvolvimento NW-SE, galeria dos Gours com desenvolvimento NE-SW e galeria Fóssil, com desenvolvimento grosseiramente E-W. O nome desta última galeria pode induzir em erro uma vez que é tão fóssil quanto as outras duas. Junto à base do poço de entrada encontra-se um dos aspectos mais interessantes desta gruta, a chamada “Casca de ovo”, uma camada de concreção (flowstone) que se encontra suspensa no topo de um poço que dá acesso a uma galeria colmatada.

Figura 2 – Aspecto da entrada da gruta

Figura 2 – Aspecto da entrada da gruta

Figura 2 – Aspecto da entrada da gruta

Espeleometria

De acordo com CEAE, 2013 A gruta tem 121 metros de profundidade e 958 metros de passagens. Embora não seja uma grande caverna numa perspectiva mundial, é considerada uma grande caverna do ponto de vista nacional; a sua diversidade de espeleotemas, passagens, poços e lagos torna-a única e importante.

Enquadramento Estratigráfico

A gruta desenvolve-se segundo a Folha 27-C da Carta geológica de Portugal à escala 1/50000 junto ao limite na formação de Calcários micríticos da Serra de Aire datada do Batoniano (Jurássico Médio), composta principalmente por calcário micrítico. A cerca de 1 km Sul a formação de formação de Calcários micríticos da Serra de Aire contacta através de falha com a formação de Camadas de Montejunto do Oxfordiano Médio a Superior (Jurássico Superior), composta por calcários, calcários argilosos e argilas calcárias.

Génese do poço de entrada

A cavidade é composta por colectores de dimensões consideráveis. O acesso a estes colectores faz-se por um conjunto de poços que podem ser considerados como um vadose shaft, segundo a definição de Baron 2003, ou um algar de infiltração, numa tradução não literal do termo. Este conjunto de poços não está geneticamente ligado à gruta. Trata-se de poços desenvolvidos na zona vadosa inactiva (segundo a definição de Bogli, 1980) e que serviam para transportar a água do epicarso (zona mais superficial e alterada/fracturado do carso) para os colectores que se desenvolveram na zona freática (zona do carso sempre inundada) conforme o modelo descrito por Baron, 2003. Aliás na gruta abundam fracturas por onde, ainda hoje a água se infiltra. Os poços de entrada não são mais que algumas destas fracturas alargadas e que coalesceram entre si. As caneluras de dissolução cravados nos poços de entrada, são uma das formas típicas dos vadose shaft conforme descrito por Baron, 2003. Os poços de entrada são controlados por fracturas de atitude N70W/Vert, N70E/Vert e N20W/Vert.

Figura  3 – Aspeto do poço de entrada (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE). Note-se as caneluras de dissolução, típicas dos vadose shafts.

Figura 3 – Aspecto do poço de entrada (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE). Note-se as caneluras de dissolução, típicas dos vadose shafts.

Figura 3 – Aspecto do poço de entrada (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE). Note-se as caneluras de dissolução, típicas dos vadose shafts.

Génese das galerias

As galerias da gruta são o testemunho, de um conjunto de antigos colectores por onde circulava um rio subterrâneo. As formas arredondadas das paredes, as secções grosseiramente elípticas ou circulares das galerias, as vagas de erosão e os meandros de algumas galerias denunciam uma origem freática da gruta. Ou seja a gruta formou-se na zona freática do carso (segundo a definição de Bogli, 1980), uma zona permanentemente inundada. Os colectores além da água do rio subterrâneo eram alimentados também por água proveniente do epicarso, pelas fracturas, que surgem como chaminés na gruta. O diâmetro original das galerias é de uma forma geral de grandeza métrica, embora em alguns locais este esteja diminuído pela acumulação de sedimentos, acumulados numa fase posterior.

Figura 4 – Aspeto da galeria dos Gours (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE). Note-se a secção arredondada da galeria e das vagas de erosão no lado esquerdo, típicas de grutas de origem freática.

Figura 4 – Aspecto da galeria dos Gours (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE). Note-se a secção arredondada da galeria e das vagas de erosão no lado esquerdo, típicas de grutas de origem freática.

Figura 4 – Aspecto da galeria dos Gours (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE). Note-se a secção arredondada da galeria e das vagas de erosão no lado esquerdo, típicas de grutas de origem freática.

Controlo estrutural

O controlo estrutural do desenvolvimento das galerias é complexo. A gruta é atravessada por uma grande número de fracturas. Nas galerias do Laminador e Gours as fracturas, de longe mais abundantes são as de atitude E-W/Vertical. As descontinuidades desta família, na maior parte dos casos cruzam as galerias, provocando alargamentos, mas não controlam o seu desenvolvimento. Na galeria dos laminadores existem numerosos locais onde são muito frequentes estas intersecções. Estas fracturas influenciam sobretudo o desenvolvimento de chaminés e poços que saem destas galerias. Há porém excepções como: o troço terminal da galeria dos Gours, controlado por uma fractura N80E/Vert, o troço final da galeria dos Laminadores controlado por uma fractura de atitude E-W/Vertical e o troço terminal da galeria fóssil controlado por uma fractura de atitudeN70W/Vert. Esta família de fracturas, juntamente com fracturas E-W/Vertical controla também o poço terminal da galeria fóssil.

A zona da Casca de ovo tem um controlo por fracturas de atitude N30W/Vert e E-W/vertical (poço na base da casca de ovo)

Outras fracturas de atitude N10W/Vert, N50E/Vert, N40W/Vert cortam também a gruta, mas sem grande influência no seu desenvolvimento

Apesar das medições da atitude das camadas, realizados no interior da gruta terem fornecido resultados horizontais, não é de excluir que haja ligeiras inclinações, que se façam reflectir no desenvolvimento da gruta. A atitude regional das camadas é segundo a Folha 27-C da Carta geológica de Portugal à escala 1/50000, aproximadamente NE-SW a E-W com inclinações próximas de 10º, para Sudeste ou para Sul respectivamente. A direcção da galeria dos Laminadores NW-SE é próxima da direcção da inclinação das camadas enquanto as galerias dos Gours e Fóssil se desenvolvem de um modo grosseiro com direcção E-W a ENE-WSW, próxima da direcção regional das camadas.

Figura 5 – Fractura bem visível no tecto da galeria dos laminadores. (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE)

Figura 5 – Fractura bem visível no tecto da galeria dos laminadores. (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE)

Figura 5 – Fractura bem visível no tecto da galeria dos laminadores. (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE)

Padrão da gruta

A gruta apresenta um padrão que pode ser classificado, de acordo com Palmer, 2003, como ramificado curvilíneo. Segundo o autor anterior este tipo de padrão é característico de sistemas controlados por superfícies de estratificação e com recarga através de dolinas e eventualmente linhas de água que se perdem em sumidouros.

Registo Sedimentar

A gruta apresenta abundantes sedimentos. Nos sedimentos litoquímicos destaca-se o cortejo de estalactites, estalagmites, colunas e bandeiras, muitas vezes alinhadas ao longo das fracturas, por onde há infiltração da água, os gours (que dão o nome a uma das galerias) e flowstone, como por exemplo na Casca de ovo. Nos sedimentos detríticos, existem abundantes blocos resultantes do abatimento de tectos e que disfarçam muitas vezes a morfologia original da cavidade e abundante argila. De facto dos sedimentos detríticos destaca-se a argila muitas vezes intercalada e coberta por concreção. A espessura que esta alternância de argila e flowstone atingem é de ordem métrica, sendo visíveis espessuras de 2-3m nas galerias Fóssil e do Laminador e cerca de 8m na zona da Casca de ovo. O preenchimento sedimentar colmata as zonas terminais das galerias dos Gours, Fóssil e da Casca de ovo, sendo visíveis, sobretudo na galeria fóssil os” rolhões” de sedimentos que impedem a progressão na cavidade.

Figura 6 – Aspeto da galeria Fóssil (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE). Note-se o preenchimento sedimentar, que terá chegado a preencher quase toda a secção da galeria e o canal de tecto ao fundo.

Figura 6 – Aspecto da galeria Fóssil (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE). Note-se o preenchimento sedimentar, que terá chegado a preencher quase toda a secção da galeria e o canal de tecto ao fundo.

Figura 6– Aspecto da galeria Fóssil (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE). Note-se o preenchimento sedimentar, que terá chegado a preencher quase toda a secção da galeria e o canal de tecto ao fundo.

Evolução da Cavidade

Podemos considerar que o algar das Gralhas VII apresenta quatro fases de desenvolvimento distintas:

  • Formação dos colectores na zona freática, (e portanto em regime freático) com controlo pela superfície de estratificação e fracturas. A água provinha de troços da gruta a que actualmente não temos acesso e da infiltração de água a partir das fracturas. A corrosão por mistura resultante da mistura da água de infiltração (meteórica) e da água que circulava na gruta, poderá ter ajudado a desenvolver as chaminés da galeria dos Laminadores.
  • Colmatação da cavidade com sedimentos. Esta colmatação preencheu quase por completo a cavidade. Tal implica uma diminuição da velocidade de circulação da água e ou aumento do acarreio sedimentar (reflexo por exemplo de alterações climáticas). A espessura dos sedimentos terá chegado a atingir os 8m de espessura, como observado na Casca de ovo. Os abundantes sedimentos em que alternam camadas argilosa e de concreção, que ainda hoje existem na gruta terão sido depositados nesta fase. Alguma circulação de água continuou a ocorrer, junto ao tecto, formando canais de tecto. Alguns destes canais de tecto são visíveis nas galerias Fóssil (Figura7 ), dos Gours e Casca de ovo. O primeiro laminador da galeria dos Laminadores é um troço de galeria colmatado quase até ao tecto e que pode ser ele próprio considerado um canal de tecto.
  • Escavação dos sedimentos, devido provavelmente a uma descida do nível de base, com a formação de “vales” de perfil em V, nos sedimentos, esta escavação terá ocorrido já na zona vadosa semiactiva (ou seja com ar dentro da cavidade).
  • Novo rebaixamento do nível de base, com a água a perder-se, através de poços (controlados por fracturas) para níveis inferiores, onde se dará a circulação hoje em dia. Estes poços abundam em todas as galerias, a sua profundidade ronda os 20m, 50m no máximo e terminam em fendas intransponíveis. Os sedimentos erodidos terão sido, pelo menos parcialmente, exportados, em profundidade através destes poços, fenómeno ainda hoje observável no poço terminal da Casca de Ovo.

Podemos colocar a hipótese do rebaixamento do nível de base ter ocorrido numa só fase, com a água de infiltração proveniente das várias fracturas que cruzam a gruta ser suficiente, para erodir os sedimentos e transportá-los para os níveis inferiores.

Figura 7- Cabeceira do poço terminal da galeria Fóssil. (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE). Este é um dos poços por onde terão sido escoadas, para níveis inferiores, as águas que circulavam nas galerias e que hoje em dia ainda servem para escoamento das águas de infiltração que penetram na gruta.

Figura 7- Cabeceira do poço terminal da galeria Fóssil. (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE). Este é um dos poços por onde terão sido escoadas, para níveis inferiores, as águas que circulavam nas galerias e que hoje em dia ainda servem para escoamento das águas de infiltração que penetram na gruta.

Figura 7- Cabeceira do poço terminal da galeria Fóssil. (Foto retirada da visita virtual LPN-CEAE). Este é um dos poços por onde terão sido escoadas, para níveis inferiores, as águas que circulavam nas galerias e que hoje em dia ainda servem para escoamento das águas de infiltração que penetram na gruta.

Posição do antigo nível de água

As três galerias do Gralhas VII compõem um antigo colector cuja cota ronda os 270-280m, marcando assim um antigo nível de água na unidade morfoestrutural do Planalto de Sto. António. Os poços existentes em algumas galerias denunciam um rebaixamento do nível de água em mais de 50m, situando-se assim o novo nível de água a cotas inferiores a 230-240m.

De referir que existem vestígios de um antigo nível de água a cotas próximas dos 270-280m, noutras grutas do Maciço Calcário Estremenho. São de referir no planalto de São Mamede, perto da localidade de Bairro, o algar da Malhada de Dentro com galerias fósseis a 280-260m, a Lapa do Sobral com galerias a 290-280m e o algar do Maquito com galerias à cota 280-285m, na Serra dos Candeeiros o algar dos Ursos com galerias próximas dos 275m e na zona do polge de Minde, em Mira de Aire, o algar da Lomba com galerias que se estendem desde cerca dos 310m até perto dos 240m e a gruta do Mindinho cuja boca, uma antiga possível nascente se encontra à cota 275m, embora o desenvolvimento da gruta se dê a cotas menores.

Ainda no planalto de Sto. António, a cerca de 300m a Sul do algar das Gralhas VII, abre-se no fundo de uma antiga pedreira, um outro algar, o algar do Sapateiro, em que um poço com cerca de 40m dá acesso uma galeria fóssil, a cota da galeria, cerca de 280m, é praticamente a mesma cota das galerias do algar das Gralhas VII. Este algar marca, um pouco mais a Sul o mesmo nível de água que o algar das Gralhas VII. A semelhança de dimensões da secção e proximidade ao algar das Gralhas VII, fazem pensar que o algar do Sapateiro é um troço do mesmo sistema mas seccionado durante a evolução da cavidade.

Relação com níveis de aplanação

De acordo com G. Manupella et al, 2006 as galerias fósseis do Algar das Gralhas VII definem um nível de paleocirculação subterrânea situado a escassas dezenas de metros abaixo do nível de aplanação de Murteira-Carvalheiro. Segundo os autores anteriores este nível de aplanação, formada por erosão, é composto por uma faixa aplanada com 1 a 2 Km de largura, que se estende desde Casais da Mureta, Carvalheiro, Cortiçal e Vale da Trave até Murteira e Pé da Pedreira. Este nível de erosão bisela os calcários do Jurássico Médio e Superior à altitude de referência de 250m, de acordo com G. Manupella et al, 2006 após Martins 1949). Segundo Martins, 1949 a superfície de aplanação foi formada por erosão fluvial (uma vez que nela o autor não encontrou qualquer depósito marinho). Também Thomas 1983, refere a existência de um paleonível de base à cota 200m, marcado à superfície por um nível de aplanação com 2 a Km de largura que se estenderia desde o Covão do Feto ao longo do flanco Sul do planalto de Sto. António, a cotas entre 150 e 230m, em profundidade este autor refere que o nível se encontra preservado pelas galerias do algar das Gralhas VII. Este autor refere que as galerias estão à cota 230m, o que não é confirmado pelo presente estudo.

De acordo com G. Manupella et al, 2006 a cota desta plataforma encontra-se nos 200-220m no cabeço do Cheirinho, e Casais da Mureta, a Oeste de Murteira e Barreirinhas sobe para 260 a 290m em direcção a Valverde (nível de Chã das Pipas, Martins 1949). O nível de aplanação sobe de Este para Oeste até atingir o fundo da depressão da Mendiga (a cotas de 330m). Segundo G. Manupella et al, 2006, após Ferreira et al 1988, não existe descontinuidade evidente entre o nível de Murteira-Carvalheiro e os níveis de fundo da depressão da Mendiga. Segundo os autores anteriores, após Martins 1949 e Ferreira, 1988, a ligação entre o fundo da depressão da Mendiga e a superfície de aplanação de Murteira-Carvalheiro é feito através de um estreito corredor aplanado, delimitado pelos relevos orientais da Serra da Lua e pela escarpa da falha da Mendiga. Segundo G. Manupella et al, 2006 a superfície de erosão apresenta-se bastante inclinada para o interior do maciço (Murteira) ou com o aspecto de caleira ampla (Vale da Trave, Carvalheiro). Segundo os autores anteriores a superfície está amplamente carsificada com grande número de dolinas e pequenos troços de vales cegos, a diferença entre a superfície de referência e o fundo das dolinas atinge cerca de 30 metros.

Já Martins 1949 considera não uma, mas duas superfícies distintas, o nível de Chã das Pipas, a cotas de 280-290m, de idade ante-pliocénica e um outro nível entre a Murteira e Carvalheiro entre 240 e 250m já do Pliocénico. Os níveis estariam separados por um estreitamento da plataforma a Norte do Vale da Mata (onde se encontra a nascente do Olho da Mata) e por uns cabeços cuja cota ronda os 250m e estão cerca de 10m mais alto que a superfície a Este e Oeste.

Segundo G. Manupella et al, 2006 o limite Sul da superfície de aplanação de Murteira-Carvalheiro apresenta-se bordejado por uma linha de pequenas elevações que limita o Maciço e antecede a descida para o sinclinal de Monsanto. De acordo com G. Manupella et al, 2006, Martins, 1949 considerava a depressão de Vale da Trave-Vale Florido como um polge incipiente. Embora dificilmente se possa actualmente considerar a zona Oeste da superfície com uma depressão, como  Ferreira, 1988 considera a depressão de Vale da Trave – Cabeço Florido parte da superfície de aplanação de Murteira-Carvalheiro, não é de excluir que a depressão de Vale da Trave – Cabeço Florido se prolongasse para a zona Oeste da superfície, tendo sido limitada a Sul, por uma linha de elevações, actualmente já muito erodida, ou que sempre teve pouca expressão morfológica. Assim a superfície de aplanação poderia corresponder a uma depressão cársica, com contorno pouco marcada a Oeste, com uma extensão de alguns Km e que bordejava o limite SW do Planalto de Sto. Antórnio.

A proximidade de cotas entre o nível de aplanação de Murteira-Carvalheiro e as galerias fósseis do Algar das Gralhas VII é notória, havendo até uma coincidência entre a cota da zona Oeste da superfície de Murteira-Carvalheiro, a zona mais próxima da localização do algar, com a cota de fundo a rondar os 270-280m, com os 280-290m das galerias fósseis. Podemos, embora com ressalvas, pôr a hipótese da superfície de aplanação e o antigo colector do Algar das Gralhas VII estarem geneticamente relacionados. A ser verdade esta hipótese, a linha de água responsável pela erosão da superfície (se é que é mesmo de erosão fluvial a sua origem) partilharia o mesmo nível de base que as águas subterrâneas drenadas pelas galerias fósseis. A descida do nível de base fez-se reflectir em profundidade pelo abandono da circulação nas galerias dos 280-290m e poder-se-ia também reflectir na superfície de erosão, com o abandono pela água superficial da zona da superfície, com cotas mais altas (290-270m). A presença de água superficial e de erosão continuariam nas zonas mais baixas da superfície (240-250m) possivelmente ainda mais rebaixadas pelo trabalhar da erosão.

Figura 8 – Excerto da folha 328  da carta Militar de Portugal com a marcação tentativa do nível de aplanação de Murteira-Carvalheiro. O circulo vermelho marca a localização aproximada da gruta, o nível de Murteira-Carvalheiro está delineado a azul.

Figura 8 – Excerto da folha 328 da carta Militar de Portugal com a marcação tentativa do nível de aplanação de Murteira-Carvalheiro. O circulo vermelho marca a localização aproximada da gruta, o nível de Murteira-Carvalheiro está delineado a azul.

Figura 8 – Excerto da folha 328 da carta Militar de Portugal com a marcação tentativa do nível de aplanação de Murteira-Carvalheiro.

Idade da gruta

A haver uma relação genética entre a superfície de aplanação e as galerias fósseis do algar das Gralhas VII, segundo a datação da superfície de aplanação proposta por Martins, 1949 a circulação da água nas galerias do Algar das Gralhas VII seria ante-pliocénica tendo o abandono da circulação ocorrido no Pliocénico. De referir que esta datação nos merece muitas reservas.

Circulação da água

Apesar de existirem na gruta vagas de erosão, como são praticamente assimétricas não foi possível determinar o sentido de circulação da água. Porém as galerias do Laminador, Gours e Casca de Ovo confluem na base do poço de entrada seguindo-se lhes a galeria Fóssil. Segundo o padrão ramificado curvilíneo de Palmer, 2003, as galerias, de modo semelhante a um rio superficial, tendem a confluir e não a difluir, como tal é provável que a circulação se desse de Oeste para Este, ou seja das galerias do Laminador e Gours para a galeria Fóssil.

É também para Este da gruta que se conhecem as principais nascentes do Planalto de Sto. António, a saber Olho da Mata (cota: 160m), Vila Moreira (cota: 100m), e Alviela (cota: 70m). Todas estas nascentes estão a cotas inferiores às das galerias do algar das Gralhas VII (280-290m). Thomas 1985, sugere uma ligação das galerias do algar das Gralhas VII à nascente do Olho da Mata. Das nascentes apenas a do Alviela é actualmente permanente. As águas que circulavam nas agora galerias fósseis, poderiam ter como destino alguma ou algumas destas nascentes, ou inclusive outras entretanto abandonadas. O condicionamento estrutural do bordo Norte da superfície de aplanação de Murteira-Carvalheiro entre Alqueidão do Mato e Valverde é propício ao surgimento de nascentes, devido ao contacto por falha entre formação mais permeáveis do Jurássico Médio e outras menos permeáveis do Jurássico Superior. Situação semelhante, ocorre por exemplo nas nascentes do bordo Norte do polge de Minde.

Figura 9 - Foto de satélite com localização da entrada do algar das Gralhas VII e de nascentes relativamente próximas

Figura 9 – Foto de satélite com localização da entrada do algar das Gralhas VII e de nascentes relativamente próximas

 

Conclusões

O desenvolvimento da gruta é controlado parcialmente por fracturas de ou próximas de atitude E-W/Vertical, e muito possivelmente pela atitude das camadas. A gruta teve uma evolução complexa, função das variações do nível de base e encontra-se em grande parte preenchida por sedimentos, que impedem o acesso a outros sectores da gruta. A gruta situa-se no bordo Sul do Planalto de Sto. António, cerca de 1km a Norte do contacto por falha entre calcários muito carsificáveis do Jurássico Médio e calcários menos carsificáveis do Jurássico Superior. Este condicionamento é semelhante à de colectores ainda hoje activos e semi-activos no polge de Minde e terá potenciado a circulação de água na faixa de calcários do Jurássico Médio a Norte da falha.

O algar das Gralhas VII marca um antigo nível de circulação de água que ronda os 280-290m de cota e que baixou posteriormente, tendo a circulação abandonando as galerias. Este nível de água está também registado noutras grutas (sem circulação actual) em todas as unidades morfoestruturais do Maciço Calcário Estremenho. O nível de água (280-290m), poderá ter-se reflectido também no exocarso, pois coincide com a parte mais alta da superfície de aplanação de Murteira-Carvalheiro, podendo haver um desenvolvimento contemporâneo da gruta e da superfície. A água circularia muito possivelmente para Este. Tal é indicado pela confluência de galerias e por serem onde ainda hoje se encontram, as principais nascentes do Planalto de Sto. António. Como as condições estruturais do bordo Norte da superfície de aplanação de Murteira-Carvalheiro são propícias à formação de nascentes, outras nascentes que não as actuais, poderiam fazer a drenagem deste nível de água.

Algumas considerações

O algar das Gralhas VII constitui uma riqueza patrimonial inestimável, pela sua beleza, mas sobretudo pela informação que contem sobre a evolução dos níveis de água e clima no MCE. Talvez por isso esteja incluído no Anexo I do Regulamento do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros como um local onde a conservação dos valores nele existentes se afigura necessário realizar. A visitação a esta cavidade, inclusive por parte da comunidade espeleológica está sujeita a autorização. Ora não deixa de ser curioso que este mesmo sítio esteja em risco pelo avanço da exploração de uma pedreira próxima.

Agradecimentos

Dada a impossibilidade de agradecer a todas as pessoas envolvidas nos trabalhos realizados no algar das gralhas VII, agradeço ao CEAE/LPN e aos seus associados e amigos a possibilidade de colaborar neste projecto. Agradeço a todos os espeleólogos que participaram a paciência e o trabalho que tiveram durante a realização do levantamento geológico. A todos um grande bem haja.

Referências bibliográficas

  • Baroñ, Ivo (2003) – Speleogenesis along subvertical joints: A model of plateau karstshaft development: A case study: the Dolný Vrch Plateau (Slovak Republic), Cave&Karst Science 29 (1), 2002, 5-12.  010
  • Bögli, A. (1980), Karst Hydrology ana Physical Speleology, Springer-Verlag, Berlin Heildelberg New York.
  • Manupella, G., Barbosa, B, C.A., Azerêdo, Carvalho J,; Crispim, J., Machado S.; Sampaio J..; (2006). Carta Geológica de Portugal –Torres Novas, Folha 27-C, á escala 1:50000, e Nota Explicativa, Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação, Lisboa
  • Manupella, G., Telles Antunes, M., Costa Almeida, C.A., Azerêdo, A.C., Barbosa, B., Cardoso, J.L., Crispim, J.A., Duarte, L.V., Henriques, M.H., Martins, L.T., Ramalho, M.M.; Santos, V.F.; Terrinha. P.; (2000). Carta Geológica de Portugal – Vila Nova de Ourém, Folha 27-A, á escala 1:50000, e Nota Explicativa, Instituto Geológico e Mineiro, Lisboa
  • Martins, A. F. (1949). Maciço Calcário Estremenho – Contribuição para um estudo de Geografia Física. Tese de Doutoriamento, Universidade de Coimbra, Coimbra
  • Palmer, Arthur N., (2003) Speleogenesis in Carbonate rocks, In: Evolution of karst: from prekarst to cessation. Postojna-Ljubjana ZCR, 43-60. Also available at: http://speleogenesis.info
  • Thomas, C.; (1985) Grottes et algares du Portugal, Comunicar Lda. Lisboa
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~ por paulor2005 em 25 / 03 / 2015.

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