O Algar da Manga Larga uma clássica dura


Localização e acessos

O  algar da Manga Larga situa-se no Planalto de Sto. António, concelho de Porto de Mós. O acesso faz-se por um estradão que cruza com a estrada de Cabeço das Pombas – Marinha da Mendiga., logo após a subida da encosta do planalto, de que vem da Marinha da Mendiga, após umas largas centenas de metros, tem de se continuar a pé, por mais cerca de 400m até já no inicio da descida para o vale surge a boca do algar.

Á saída da gruta com o frio habitual

À saída da gruta com o frio habitual

  

As coordenadas do algar são: 29S E=514620, N=4374674 (Datum ED50- Coordenadas UTM rectangulares)

História da exploração do algar

Este texto não supõe ser uma descrição exaustiva, mas apenas uma súmula dos acontecimentos mais importantes da exploração da gruta de que há registo escrito.

De acordo com Crispim 2012, a gruta foi indicada em 1971 pelo Sr. António Carolino, da Azelha, numa grande jornada de prospecção feita por uma equipa da SPE constituída por João Sena e J. A. Crispim na qual foram identificados vários algares importantes da região. Para mais informações consultar:

http://www.spe.pt/espeleologia/prospeccao-e-cadastro/339-o-algar-da-manga-larga-na-costa-da-mendiga

Segundo Thomas, 1985 o início da exploração da gruta deu-se em 1975, por parte de uma equipa da SPE (Sociedade Portuguesa de Espeleologia) composta por José Crispim, Vítor Leal, Sá Pires e Costa Almeida. Esta associação prossegue com trabalhos de exploração e desobstrução até atingir os -106m de fundura, onde os trabalhos são retidos numa desobstrução assaz difícil.

O SAGA (Sociedade dos Amigos das Grutas e Algares) é a associação de que temos notícia fez posteriormente trabalhos na gruta, segundo informações recolhidas, esta associação entre 1989 e 1991 completa uma desobstrução, abrindo uma passagem, o chamado “filtro de café” que permite o acesso para os níveis inferiores da gruta. O grande impulsionador do trabalho terá sido João Neves e Luis Vieira. João Quaresma da AES (Associação de Espeleólogos de Sintra), ajuda nos trabalhos finais. Quando os trabalhos acabam a gruta tem 186m de profundidade e é produzida a topografia mais completa desta gruta.

De acordo com Regala, 2004, em 2003 a AESDA (Associação Estudos Subterrâneos e Defesa do Ambiente), uma equipa composta por Rui Luís, Sisenando Simões, Valter Luís e Bruno Oliveira realiza trabalhos nesta gruta, dos quais se salienta a remoção do crânio e ossos de um felídeo (que era descrito por Thomas, 1985 como sendo de um cão) e que após este estudo se revelou tratar de uma pantera. Para mais informações sobre este trabalho consultar:

http://www.aesda.pt/documentos/pdf/trogle5.pdf

 Esta gruta é alvo de visitas frequentes por parte da comunidade espeleológica, tendo decerto sido desenvolvidos mais trabalhos para além dos acima referidos, porém apenas encontrámos registo escrito dos trabalhos acima referidos.

Topografia da gruta

 

 

Principais pontos de interesses da cavidade

 O algar da Manga Larga é uma das clássicas da espeleologia nacional, o interesse por esta gruta advém da sua profundidade (186m), sendo ainda hoje uma das grutas mais fundas do país, apenas ultrapassada pelos algares do Palopes (270m), Alecrineiros Sul (220m), Carvalhos (207m). Com esta profundidade, o fundo da gruta encontra-se abaixo da cota do polge da Mendiga (310-350m) e faz sonhar com ligações a possíveis colectores. Esta potencial ligação, já referida por Thomas, 1985, não foi no entanto ainda realizada.

A dificuldade técnica da gruta acaba por ser para alguns também um atractivo, as passagens estreitas no topo da maioria dos poços, o poço de entrada de 55m, que tipicamente se equipa num único troço, a profundidade da gruta, a passagem do chamado filtro de café (aos -102 m de fundura) particularmente estreita, tornam esta gruta uma das mais duras  da espeleologia nacional. Aos 155 metros de profundidade encontra-se a passagem para a zona mais profunda da gruta, o acesso faz-se por um chamado meandro (que não é um meandro verdadeiro) e é verdadeiramente estreito. A bem dizer, além da topografia das zonas inferiores da gruta, não se conhece muito mais da gruta abaixo dos 155 metros de profundidade, são muito poucos os que lá conseguiram chegar e não há notícia que alguém tinha visitado recentemente esta zona da gruta.

Trabalhos realizados na gruta

Os trabalhos foram realizados entre Dezembro de 2013 e Março de 2014.

Os trabalhos realizados foram os seguintes:

  • Reequipagem da gruta, com colocação de pontos de amarração em aço inox, em substituição de pontos antigos que apresentavam deficientes condições de segurança. As escaladas, que são necessárias fazer para progredir no interior da gruta, foram deixadas equipadas  com corda permanente.
  • Levantamento geológico da cavidade
  • Desobstrução de um poço lateral situado junto à base do poço de entrada.

 Os trabalhos foram realizados com a participação de cerca de 18 espeleólogos, divididos pelas várias saídas, das seguintes associações (por ordem alfabética): AES (Associação de Espeleólogos de Sintra), ARCM (Alto Relevo – Clube de Montanhismo), GEM – (Grupo de Espeleologia e Montanhismo) e Espeleo Club de Aradelas (Galiza).

O poço de entrada

O poço de entrada

A base do poço de entrada

 

O início da subida do poço de entrada

O início da subida do poço de entrada 

 

Os  participantes nas actividades

Ficam aqui os nomes dos participantes nas actividades nesta gruta, sem os quais estes trabalhos não teriam sido possíveis. É possível que não me lembre de todos.

Ana Anjo, Andrew Tabata, António Afonso (o grande mentor deste projecto), Beatriz Silva, Bernardo Vila, Bruno Pais,  Florbela Silva, Jorge Melo, Maria Luísa, Marta Borges, Marco Matias, Magda, Miguel Matos,   Paulo Campos, Paulo Lopes, Paulo Rodrigues,  Patrícia Neto,  Nuno Rodrigues, Ricardo Conceição, Vítor Amendoeira.

 Enquadramento geológico

A cavidade fica situada perto do bordo Oeste do planalto de Santo António, uma das unidades morfológicas definidas por Fernandes Martins, 1943.O planalto de Santo António é (Manuppela et al, 2000), uma unidade geo-morfológica de forma triangular, cujo vértice se desenvolve para Norte, constituído por superfícies altas limitadas por escarpas vigorosas, a ocidente e a oriente e uma vertente meridional que desce mais progressivamente até ao bordo sul do maciço. Todo o perímetro do planalto é delimitado por falhas às quais deve a sua posição elevada, em relação à envolvente.

Em termos estruturais, e com base na análise expedita da Carta Geológica de Portugal referida anteriormente, o Planalto de Santo António corresponde a um monoclinal com algumas flexuras, em que as formações apresentam uma direcção regional que varia entre aproximadamente WNW-ESE e NW-SE, inclinando suavemente para Sul. Este monoclinal é cortado por uma série de falhas com direcção aproximada WNW-ESE – NW-SE, muitas delas com preenchimento dolerítico. Estes filões podem do ponto de vista hidrogeológico segmentar pelo menos parcialmente o planalto, ao funcionarem como barreiras impermeáveis. Esta zona do planalto é limitada a Oeste por uma falha que separa o planalto do polge da Mendiga, situado cerca de 150 a 200m mais abaixo.

A boca da gruta abre-se um pouco abaixo do topo da encosta que desce para o polge da Mendiga, num dos socalcos, pelos quais se faz a ruptura de declive da vertente.

Excerto da Folha 27-A (Vila Nova de Ourém) da  carta geológica de Portugal à escala 1/50000 . A cor amarela, algumas cavidades da zona; a verde, a localização do corte geológico.  Retirado de algar dos carvalhos (CEAE-LPN) .  http://www.lpn-espeleo.org/index.php/noticias/35-algar-dos-carvalhos

Excerto da Folha 27-A (Vila Nova de Ourém) da carta geológica de Portugal à escala 1/50000 . A cor amarela, algumas cavidades da zona; Retirado de algar dos carvalhos (CEAE-LPN) . http://www.lpn-espeleo.org/index.php/noticias/35-algar-dos-carvalhos

Litologia e formações

A boca da gruta abre-se, de acordo com a Folha 27-A da carta geológica de Portugal à escala 1/50000, junto do limite entre a formação dos Calcários Mícriticos da Serra de Aire datados do Batoniano e a formação de Calcários Bioclásticos do Codaçal.A gruta dada a sua profundidade (-186m) deve no entanto atravessar estas formações. prolongando-se pelas formações subjacentes de Calcários de Chão das Pias (Bajociano superior). As camadas, observadas no interior da gruta estão subhorizontais.

Génese da gruta

A gruta é um “vadose shaft “ de acordo com a definição de Baron, 2003, sendo constituído sobretudo por fracturas alargadas pela corrosão de águas de infiltração, provenientes do epicarso, a zona mais superficial e alterada do maciço cársico. As paredes têm caneluras de dissolução descritas por Baroñ, 2003 como uma das características dos “vadose shafts. A gruta encontra-se na zona vadosa inactiva de acordo com a definição de Bögli, 1980.

Uma das passagens não muito largas

Uma das passagens não muito largas

Controlo estrutural

O controlo estrutural é realizado sobretudo por fracturas das seguintes famílias: N20E/Vertical, N40E/Vertical, E-W/Vertical, N20W/Vertical, N40W/Vertical e N60W/Vertical. Embora tenha pouca expressão na totalidade da gruta, um dos poços situado aproximadamente entre os -145 e 155m é controlado por uma fractura de atitude E-W/60S, que lhe dá o seu aspecto em “rampa” Estas famílias controlam a os poços e os chamados “ meandros” que não passam de fracturas alargadas que se cruzam entre si, e a quem a corrosão da água, arredondou as formas dando essa ilusão de “meandro”.

Fica aqui uma planta parcial da gruta (falta a parte mais profunda) com a implantação das principais famílias de fracturas.

Planta parcial do algar da Manga Larga (falta a zona mais profunda) com as principais famílias de fraturas

Planta parcial do algar da Manga Larga (falta a zona mais profunda) com as principais famílias de fracturas

Referência Bibliográfica

Baroñ, Ivo (2003) – Speleogenesis along subv ertical joints: A model of plateau karstshaft development: A case study: the Dolný Vrch Plateau (Slovak Republic), Cave&Karst Science 29 (1), 2002, 5-12.  010

Crispim, J.A., (2012) O Algar da Manga Larga, na Costa da Mendiga, in http://www.spe.pt/espeleologia/prospeccao-e-cadastro/339-o-algar-da-manga-larga-na-costa-da-mendiga.

Manupella, G., Telles Antunes, M., Costa Almeida, C.A., Azerêdo, A.C., Barbosa, B., Cardoso, J.L., Crispim, J.A., Duarte, L.V., Henriques, M.H., Martins, L.T., Ramalho, M.M.; Santos, V.F.; Terrinha. P.; (2000). Carta Geológica de Portugal – Vila Nova de Ourém, Folha 27-A, escala 1:50000, e Notícia Explicativa, Instituto Geológico e Mineiro, Lisboa.

Regala, Frederico Tatá; Cardoso, João Luís (2007). Vestígios paleontológicos do Algar da Manga Larga, Palaeontological remains from the Manga Larga cave. Trogle – Boletim da Associação de Estudos Subterrâneos e Defesa do Ambiente.

Thomas C., (1985) Grottes e algares du Portugal, Comunicar Lda. Lisboa

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~ por paulor2005 em 16 / 05 / 2014.

Uma resposta to “O Algar da Manga Larga uma clássica dura”

  1. Bela clássica, e por norma estas têm sempre algo mais a dar, força!

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