A IRMANDADE DOS SIFÕES – CAMPANHA DO MINDINHO 2013


A campanha do Mindinho de 2013 ficará, julgo eu, marcada na história espeleológica Portuguesa. Há algumas décadas que a loucura não atingia tão forte os espeleólogos portugueses. Houve de tudo, tanto que não se consegue sequer tentar descrever o que se passou neste post. Ficaram muitas histórias para contar: a vulcanização furiosa, as 48h seguidas à procura da ligação mal feita,  os banhos gelados, a lama que não acabava, os ligeiros choques, os dias passados a olhar para a mangueira à espera que a água deixasse de sair, os mergulhos sabotados pelas rampas de areia dos sifões, as ostras e o vinho verde, as bombas que insistiam em não funcionar,  o cabo que não passava electricidade, os 400m de cabo eléctrico  colocados sem um corte, o relé “quitado”, o peixe das areias e a retirada a contra relógio do equipamento, entre tantas outras.

O campo base, à porta da gruta

O campo base, à porta da gruta

Fica sobretudo a cumplicidade e a solidariedade que se viveu entre espeleólogos e associações, em que “buraqueiro” e cada clube contribui com o que pode: cabo eléctrico, mangueira, transformadores, ferramentas, experiência, bombas e é claro os ” fundos” que permitiram custear todo o equipamento. Pela gruta do Mindinho passaram mais de 30 espeleólogos, dias houve em que houve mais de quinze pessoas, a trabalhar por turnos, e outros em que dois ou três mantiveram o trabalho a correr. Cada um trocou o que pôde do seu tempo ao sol, no Verão, pela gruta do Mindinho. Sinto a a obrigação de referir, sem prejuízo de nenhuma das outras, quatro pessoas, que julgo sem as quais nunca se teria atingido o que se consegui este ano, falo dos monstros do Mindinho: Pedro Robalo e Orlando Elias,  que praticamente se mudaram para o Mindinho e do Sr. Álvaro e Dª Irene que tanto nos apoiaram na campanha, quem poderá esquecer o copo de vinho e o queijo que tantas vezes nos ofereceram depois de sairmos da gruta.

A passagem de um dos sifões

A passagem de um dos sifões

Trabalhos realizados

Os trabalhos realizados foram os seguintes:

  • Bombeamento dos sifões da cavidade
  • Espeleomergulho do sifão da Chaminé. O mergulho foi realizado por António Mendes (NEUA), mas a reduzida visibilidade, muito sedimento e configuração da parte final do sifão, impediram que este fosse atravessado por mergulho.
  • Topografia da galeria principal entre o sifão da chaminé e o sifão da Fenda
  • Levantamento geológico entre o sifão do Ressalto e o sifão da Fenda
  • Remoção de bombas, cabo eléctrico e material de equipagem do interior da cavidade

Os trabalhos realizaram-se entre 16 de Junho a 1 e 2 de Outubro, tendo sido interrompidos pela chegada das chuvas.

Prepraçao de bomba subemersível

Preparação de bomba submersível

Belo manto estalagmítico  (este manto é a capa do livro Grottes et alagres du Portugal)

Belo manto estalagmítico (este manto é a capa do livro Grottes et algares du Portugal) Foto: Marta Borges

Resultados dos trabalhos

A exploração da gruta, deste ano, atingiu o sifão da Fenda, tendo sido obtido um avanço de cerca de 300m planimétricos em relação a 2012.

Os dados espeleométricos actualizados são: desenvolvimento total=948m, desenvolvimento horizontal=837m. desnível= 88m(+0m,-88m).

A topografia actualizada encontra-se em baixo.

Topografia

Topografia

 

Galeria com gours. Foto<: Marta Borges

Galeria com gours.  Foto: Marta Borges

Geologia

Do ponto de vista geológico foi feita uma actualização do controlo estrutural da gruta.

O controlo estrutural da gruta é de interpretação complexa, dado a alteração da morfologia original da gruta devido a abatimentos e concrecionamentos e a gruta apresentar ao longo da sua extensão controlo estrutural por diferentes entidades geológicas. De um modo geral o controlo estrutural parece ser feito sobretudo pela atitude das camadas. A atitude das camadas, medida no interior da gruta, variou entre os N50-60W/20-40S e E-W/20-40S. Estes valores estão, de um modo grosseiro, de acordo com as atitudes das camadas referidas na Folha 27-A Vila Nova de Ourém da Carta Geológica de Portugal à escala 1/50000. De uma forma geral a gruta parece desenvolver-se seguindo alternadamente a direcção ou inclinação das camadas. Inclusive no troço entre o sifão do Tabique e o sifão Curvo, a gruta é influenciada por uma dobra.

Fig 12

As descontinuidades têm também influência. O troço entre o sifão do Bloco e o sifão da Diáclase (marcados S1B e S1C na topografia) apresenta um claro controlo por descontinuidades com atitude aproximada E-W/70S e N-S/5OW. No ramo NE alguns pequenos troços de galerias apresentam controlo por descontinuidades de direcção N-S e cuja inclinação roda de 10 a 50ºW, sendo as duas chaminés no final deste ramo controlados por uma família de descontinuidades de atitude N50E/Vertical. O ramo SE apresenta um controlo por fracturas da família N50E/Vertical, na zona dos Dois poços e controlo por fracturas de atitude N-S/Vertical e N40E/Vertical entre o sifão do Tabique e o sifão da Rampa de Lama.

Agradecimentos

Os trabalhos deste ano apenas foram possíveis com ao apoio no trabalho de campo dos seguintes espeleólogos enunciados por ordem alfabética: André Reis, André Gaspar, António Mendes, Bruno Pais, Carlos Gomes, Cláudia Ferraria, Célia Reis, Denise Fialho, Fátima Carvalho, Flávio Lucas, Florbela Silva, Frederico Tatá Regala, Hélio Frade, João Figueiredo, Luis Meira, Marco Dias, Márcia Cruz, Marta Borges, Nuno Rodrigues, Orlando Elias, Paulo Camelo, Paulo Campos, Paulo Lopes, Paulo Rocha, Paulo Rodrigues, Paulo Silva, Paulo Sousa, Pedro Robalo, Rui Andrade, Ricardo Conceição, Sandra Lopes, Sebastian Dufour, Vítor Amendoeira e outros que já não me lembro.

A ligação de cabos, uma das tarefas mais chatas

A ligação de cabos, uma das tarefas mais chatas

Os  trabalhos foram realizados por membros das seguintes associações de espeleologia, aqui enunciadas por ordem alfabética: AES – Associação de espeleólogos de Sintra, AESDA – Associação de Estudos Subterrâneos e Defesa do Ambiente, ARCM – Alto Relevo Clube de Montanhismo, CEAE-LPN – Centro de Actividade Especiais da Liga Portuguesa de Protecção da Natureza, GEM – Grupo de Espeleologia e Montanhismo, GEMA – Grupo de Espeleologia e Montanhismo de Aveiro, NEL- Núcleo de Espeleologia de Leira, NEUA – Núcleo de Espeleologia da Associação Académica da Universidade de Aveiro, SAGA – Sociedade dos Amigos das Grutas e Algares, SSAC – Société Spéléo-Archéologique de Caussade.

A campanha deste ano teve o apoio institucional das seguintes associações: Alto Relevo Clube de Montanhismo, (ARCM), Grupo de Espeleologia e Montanhismo (GEM) e Núcleo de Espeleologia de Leiria e Nucleo de Espeleologia da Associação Académica da Universidade de Aveiro e ainda da Federação Portuguesa de Espeleologia (FPE). A estas e todas as outras entidaddaes que apoiaram o projecto o nosso obrigado.

Futuros trabalhos
Esta gruta tem ainda muito trabalho para fazer, a cavidade continua, bastando para isso continuar a esvaziar sifões. A tarefa embora pareça simples, é muito trabalhosa, é cada vez mais cabo eléctrico, mais mangueira, mais uniões que podem ficar mal feitas, mais bombas  e maior complexidade, tudo feito a contra-relógio antes que as chuvas cheguem, para que se chegue mais longe que no ano anterior. A exploração é possível, mas exige cada vez mais empenho da comunidade espeleológica para que o trabalho se realize, não só aos fins-de-semana, mas durante as semana de modo continuo, com equipas preparadas e que se revezem com frequência.

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Para 2014 o colectivo está afastado da gruta do Mindinho. O ICNF atribuiu a autorização de visitação para esta gruta, para o período do Verão, em exclusivo a uma associação que historicamente também já trabalhou nesta gruta. Esta associação havia já regressado à gruta em 2012, já depois do colectivo ter publicado alguns dos resultados dos seus trabalhos. Cá ficaremos a aguardar a publicação dos resultados dos trabalhos de 2014 dessa associação, que se forem iguais aos de 2012, se resumem, até agora, a um grande nada.

Aguardamos que um dia nos seja permitido continuar.

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~ por paulor2005 em 20 / 01 / 2014.

3 Respostas to “A IRMANDADE DOS SIFÕES – CAMPANHA DO MINDINHO 2013”

  1. Parabéns pelo trabalho realizado. Gostaría bastante de ter colaborado convosco, mas infelizmente não foi possível. Fica para a próxima. Continuem…

  2. Excelente trabalho, ficaremos a aguardar com saudades uma próxima campanha.

  3. Muitos parabéns pelo vosso excelente trabalho em prol da espeleologia portuguesa.

    Cumprimentos,
    Valdemar Freitas
    (associado do ARCM – Valongo)

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