Algar dos Alecrineiros Sul – Uma resenha dos trabalhos


O universo espeleológioco português foi enriquecido em Maio de 2008 pela descoberta do Algar dos Alecrineiros Sul. Esta gruta era há altura a gruta mais profunda do país, com cerca de 220m de profundidade, apenas tendo sido ultrapassado em Maio de 2011 pelo Algar do Palopes (cerca de -270m). A descoberta, exploração e topografia foi feita pelos amigos da Sociéte Spéélo-Archéologique de Caussade (SSAC).  Ao que parece a gruta já era anteriormente conhecida, mas apenas algumas desobstruções realizadas com a ajuda de micro-explosivos permitiram o acesso ao resto da gruta. Os espeleólogos do SSAC contactaram o NALGA, por causa dos trabalhos realizados num algar de nome semelhante, o Alecrineiros Norte, tendo-nos informado desta nova descoberta. De igual modo forneceram gentilmente uma topografia (apenas perfil), ficha de equipagem e locais de possíveis continuações que não tinham tido tempo de ver durante a sua expedição. A topografia foi publicada no relatório da sua expedição de 2008.

Trabalhos realizados

Foram então reunidos esforços para continuar os trabalhos nesta gruta, tendo-se realizado a re-equipagem de toda a gruta,  desobstruções, explorações topografia de toda a cavidade (das zonas entretanto descobertas e das já conhecidas, de modo a se produzir uma planta da gruta) e o levantamento geológico. Este trabalhos foram realizados em coordenação com o SSAC, cujos espeleólogos voltaram a trabalhar na gruta na sua expedição de 2009.

Assim no Verão de 2008 foi feita a primeira incursão na cavidade, tendo esta a 25 de Outubro de 2009, sido equipada até ao seu ponto mais fundo, permitindo que pela primeira vez lá chegassem espeleólogos portugueses e que se pudessem realizar os restantes trabalhos acima referidos, que se prolongaram até Dezembro de 2010. O total de actividades não foi registado, mas foram realizadas actividades cerca de uma vintena.

Algumas destas actividades estão registadas neste blog e podem ser aqui encontradas. 

De referir que independentemente dos resultados que a seguir se apresentam, valeria por si só, a equipagem da gruta ter permitido que grande parte da comunidade espeleológica portuguesa passasse a conhecer esta gruta.

Resultados dos trabalhos

Desobstruções

Durante os trabalhos realizaram-se várias desobstruções, desta apenas duas deram acesso a novas  zonas. Uma destas zonas está situada numa ramificação do P32 a cerca de 40m de profundidade e que deu acesso a uma continuação lateral de poucos metros. A outra desobstrução deu acesso a um novo poço que se abre no fundo do P50 e tem cerca de 20m de profundidade, indo-se unir ao P40, prolongando-se assim de cerca de 170 a 190m de profundidade.  As outras desobstruções realizadas não tiveram resultados significativos. De referir que a passagem referenciada na topografia do SSAC como tendo corrente de ar e situada a cerca de 130m de fundura,  foi analisada (inclusive por membros do SSAC), tendo-se optado por não realizar aí nenhuma desobstrução. A corrente de ar raramente se faz sentir, e quando se faz é muito fraca, e a fractura teria de ser alargada meia dúzia de metros, o que exigira meios mais potentes que os micro-explosivos.

 De referir que não se pode considerar que a gruta foi “toda vista”, a maioria dos poços terminam em caos de blocos, não se sabendo se existe alguma continuação por baixo dos blocos. Um dos locais que apresenta potencial é o fundo do P43, que termina aos -160m e poderá ter algumas continuações, mas que exigem a remoção de blocos. O fundo do algar é do poucos poços que não termina num caos de blocos, tem o fundo (-220m) coberto com concreções não sendo visível nenhuma fractura e num cantos uma “poça” de argila. A permeabilidade do fundo deste último poço é reduzida, ficando esta parcialmente preenchido com água (com mais de 1m de altura) durante o Inverno, altura em que uma grande quantidade de água atinge o P40 e poços inferiores. A água no entanto acaba por escoar, pois no resto do ano o fundo do poço está seco.

Topografia

Foi realizado um novo levantamento topográfico da gruta, de modo a se acrescentar os duas novas zonas descobertas e a se poder produzir uma planta do algar.

A topografia ainda está no prelo, enquanto se aguarda a sua publicação, fica a topografia do SSAC. Esta topografia apresenta apenas o perfil estendido. A vermelha está a localização de uma das novas zonas descobertas. As coordenadas da gruta estão na topografia e estão no Datum ED50.

Corte planificado

Corte planificado

Geologia 

A  gruta desenvolve-se segundo a Folha 27-C da Carta geológica de Portugal à escala 1/50000 na formação de Calcários Micríticos da Serra d’Aire datados do Batoniano (Jurássico Médio). O algar é um “vadose shaft” segundo a definição de Baroñ 2003,  consistindo basicamente numa série de fracturas alargadas, pela corrosão da água que se infiltra do epicarso (parte mais superficial e alterado do maciço cársico) em profundidade e enquanto tem acidez suficiente alarga as fracturas. É esta água aliás que enche em época de chuva o fundo do último poço.

Para mais informações sobre a formação deste tipo de grutas ver: https://nalga.wordpress.com/algar-dos-alecrineiros-resultado-dos-trabalhos/

O controlo estrutural é feito sobretudo por fracturas das seguintes famílias: N20-30E/vertical, N70E/Vertical, N50W/Vertical,N20-30W/VerticaL e E-W/Vertical. Um dado poço apresentar controlo simultâneo por duas ou mais fracturas.

Associações que participaram nos trabalhos

Como já passaram muitos anos o mais provável é que faltem aqui alguns dos companheiros que passaram por esta gruta, fica aqui uma lista que peca por incompleta. Este trabalho foi possível com ao apoio no trabalho de campo dos seguintes espeleólogos enunciados por ordem alfabética: Álvaro Jalles, António Mendes, António Portugal, Beatriz Silva, Cajó, Carlos Alheiro, Carlos Gomes, Fátima Carvalho,Hélio Frade, José Silva, Luís Costa, Luís Meira, Marco Costa, Maria Fluxô, Mário Matos, Miguel Pessoa, Orlando António, Orlando Elias, Paulo Campos, Paulo Rodrigues, Pedro Alves, Pedro Robalo, Rita Lemos, Rui Andrade, Ricardo, Ricardo Oliveira, Rui Pinheiro, Samuel da Costa, Sérgio, Sérgio Medeiros, Taty Comper, Timóteo, Ulisses Lopes, Vítor Amendoeira.

Os trabalhos foram realizados por membros das seguintes associações de espeleologia, aqui enunciadas por ordem alfabética: AES – Associação de espeleólogos de Sintra, AESDA – Associação de Estudos Subterrâneos e Defesa do Ambiente, ARCM-Alto Relevo Clube de Montanhismo, CEAE-LPN – Centro de Actividade Especiais da Liga Portuguesa de Protecção da Natureza, GEM – Grupo de Espeleologia e Montanhismo, , GPS – Grupo de Protecção de Sicó, NEALC – Núcleo de Espeleologia de Alcobaça, NEL- Núcleo de Espeleologia de Leira, NEC – Núcleo de Espeleologia de Condeiixa NEUA – Núcleo de Espeleologia da Associação Académica da Universidade de Aveiro, SAGA – Sociedade dos Amigos das Grutas e Algares, Société spéléo-archéologique de Caussade.

Referência bilbliográficas

  • Baroñ, Ivo (2003) – Speleogenesis along subv ertical joints: A model of plateau karstshaft development: A case study: the Dolný Vrch Plateau (Slovak Republic), Cave&Karst Science 29 (1), 2002, 5-12.  010
  •  C.Thomas, (1985) Grottes e algares du Portugal, Comunicar Lda. Lisboa
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~ por paulor2005 em 30 / 12 / 2013.

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