Gruta da Contenda
A boca da gruta da Contenda fica situada próxima de uma escarpa, que , delimita a Norte o polje de Minde, em contraposição com a Costa de Minde , que segundo Fernandes Martins, 1949, delimita o mesmo polje a Sul. Esta escarpa, de aspecto muito mais modesto do que a sua vizinha, apresenta desnível que ronda os 10m, relativamente próximo da boca da Contenda, e tem uma orientação grosseira NO-SE.
A Contenda funciona nas alturas de maior precipitação como uma exsurgência. Outras exsurgências existentes no polje de Minde e já referidas por Fernandes Martins, 1949 , são o Regatinho, o Olho de Mira e o Poio (Gruta da Pena), todas situadas próximas da escarpa acima referida.
A gruta da Contenda desenvolve-se de acordo com a Folha 27-A da Carta Geológica de Portugal à escala 1/50000 ao longo de calcários do Batoniano (Jurássico Médio) da Formação de Calcários Mícritos da Serra de Aire.
Um aspecto a referir acerca do controlo estrutural das cavidades, cuja entrada fica situadas perto do bordo Norte do Polje de Minde é o facto de todas se situarem próximas de uma superfície de falha, que delimita a Norte o polje e estará na origem da escarpa acima referida. As falhas, de acordo com Trudgill, 1985, constituem linhas de fraqueza, que podem ser explorados por agentes de erosão. Aparentemente esta falha produziu um efeito de barreira ao pôr em contacto, pelo menos na zona Este do Polje de Minde, calcários do Dogger com grande potencial de carsificação, com Calcários do Malm de permeabilidade mais reduzida. Esta falha poderá assim funcionar assim como barreira à circulação de águas, no sentido perpendicular à falha mas também como uma zona preferencial de circulação de água paralela à própria falha. De facto embora as várias grutas, acima referidas, não estejam ainda completamente exploradas e a topografia da maioria delas esteja (como é hábito aliás) por publicar, é notório que uma série de grutas tipicamente consideradas como pertencentes a diferentes sistemas e muitas delas com orientações distintas da falha acima referida têm as suas bocas a escassas centenas de metros umas das outras e ao longo de uma estrutura que poderá ser propícia à condução de água, como tal a ligação entre algumas ou todas estas grutas/sistemas é uma possibilidade que enriquece o potencial espeleológico desta área crítica.
Antes de referir em mais pormenor os trabalhos realizados nesta cavidade é justo que se refira quem durante décadas foi responsável pelos trabalhos realizados nesta gruta. A Sociedade Portuguesa de Espeleologia é a associação que segundo C. Thomas, 1985, tem vindo a trabalhar nesta gruta desde os anos 50, até à actualidade e a quem se deve a maior parte das descobertas realizadas nesta gruta, uma galeria desta gruta tem inclusive o nome desta associação. Em 1959 o Cave Research Group da Universidade de Londres fez uma expedição a Moinhos Velhos-Pena-Contenda. Ainda C. Thomas terá realizado trabalhos nesta gruta uma vez que publica uma topografia da autoria do C.R.G. (Cave Research Group) e faz uma breve descrição da mesma. Obviamente que ao longo dos anos outros grupos poderão ou terão trabalhado nesta gruta. Se for esse caso por favor refiram-no nos Comentários de modo a podermos inclui-los nesta breve resenha histórica
Quanto a topografias publicadas da gruta da Contenda conhecem-se até à data uma do C.R.G. no livro de C. Thomas, 1985, que peca por estar muito incompleta. Uma outra topografia da gruta da Contenda, da autoria da Sociedade Portuguesa de Espeleologia pode ser encontrada à entrada das Grutas de Mira de Aire, esta é de longe a mais completa, sendo que nunca chegou a ser oficialmente publicada.
A gruta da Contenda em si, tem uma extensão considerável, cerca de 800m de desenvolvimento horizontal com um desnível máximo que ronda os 90m, em relação à boca. A gruta do ponto de vista hidro-morfológico apresenta, mercê da sua evolução características distintas em diferentes zonas. Sem nos queremos arriscar a fazer um estudo da espeleogénese desta gruta, para o qual seriam precisos trabalhos bastante mais extensos do que os que foram realizados, podemos afirmar que se trata, de uma gruta de origem freática. Este facto não implica que pelo menos numa dada fase da sua evolução parte da gruta não apresentasse circulação de carácter vadoso, da quais existem algumas evidências no interior da cavidade. De um modo geral e uma vez que toda a gruta é total ou parcialmente, inundada todos os anos, podemos considerar esta cavidade como estando na zona vadosa semiactiva como definida por Bogli, 1980.
A gruta da Contenda é composta por uma galeria superior relativamente linear, que se desenvolve durante os primeiros 170m grosseiramente para SE , a mais ou menos 230m da entrada encontra-se um poço com a única bifurcação desta galeria superior, sendo que a partir da base deste poço segue para Sul, uma segunda galeria de perfil acentuadamente descendente, que segundo C. Thomas, 1985 conduz a um sifão (de referir que na última visita que se realizou a esta galeria em 2005, ano de grande seca, não era visível água, mas apenas um ramo descendente de um sifão colmatada com areia), já para Norte continua a galeria superior. Esta galeria a cerca de 120m da bifurcação vira para Este, para mais ou menos 30m depois rumar para NO até atingir cerca de 100m depois a zona dos poços.(recorde-se que a falha que limita a Norte o Polje tem direcção NO-SE).
Os poços (com cerca de 60m de desnível) permitem o acesso a 3 zonas distintas da cavidade. Continuando a seguir o 1º poço até ao seu final chega-se à cabeceira de um 2ºpoço, que conduz a uma zona inundada da gruta. Esta zona nunca foi, por nós, visitada durante uma fase adiantada do estio , sendo que existe uma forte possibilidade de dar acesso a zona da gruta, por nós, ainda não acedidas, se bem que já com vestígios de terem sido exploradas anteriormente. Voltando ao 1º poço, pode-se passar, para um outro poço lateral efectuando um pêndulo e trepando uma escorregadia rampa de argila, que permite o acesso a uma galeria com cerca de 10m de extensão, repleta de argila no seu fundo, que termina na cabeceira de um largo poço com cerca de 6m de diâmetro. Este poço largo permite o acesso a duas galerias: uma inferior, a chamada galeria do rio, que deve o seu nome ao facto de correr um rio subterrâneo no seu interior e uma outra galeria, cerca de 8-10m acima da anterior, a galeria SPE66, cujo nome deriva, do ano em que esta galeria foi descoberta pela associação acima referida.
A galeria do rio desenvolve-se também em direcção grosseira Norte- Sul, tendo uma extensão conhecida da ordem dos 150m, o acesso à galeria do Rio faz-se por um estreito poço com cerca de 10m, que sai sobre uma galeria de direcção Este-Oeste onde circula um afluente do rio. A galeria do rio é de longe a mais fascinante e bela desta gruta sendo que podemos encontrar inclusive alguns exemplares do que Bogli,1980 designa de “cave springs”, que se poderia traduzir por nascentes cavernosas. A galeria do Rio das vezes que foi por nós visitada encontrava-se sempre com água, sendo no entanto visível a redução do nível de água com o avançar do Verão. A galeria SPE66 apresenta também um desenvolvimento grosseiro para Norte apesar de inflectir para Oeste em alguns troços.
A parte terminal da galeria SPE 66 onde se tem vindo a trabalhar nos últimos 2 anos, desenvolve-se de um modo grosseiro de Sul para Norte, tendo uma extensão de cerca de 200m até ao poço terminal. A galeria SPE 66 localiza-se na zona semiactiva, já muito próxima da zona freática. A sua posição ligeiramente elevada em relação à galeria do Rio permite-lhe ter, durante o estio, uma maior área emersa.

Aspecto arredondado das paredes (típico de corrosão em regime freático)

Outra vista do aspecto arredondado das paredes da galeria
A parte terminal da galeria SPE 66 possui um forte controlo estrutural por uma fractura de atitude aproximada N-S/60ºE, ao longo da qual a galeria se desenvolveu. A origem freática da zona final da galeria SPE 66 é salientada pela grande abundância de vagas de erosão, pela quase ausência de concreções e pela secção elíptica da galeria, cortada a meio pela fractura acima referida, todas estas características são referidos por Bogli, 1980 como sendo reveladores de uma origem freática. As vagas de erosão indicam que a circulação se fará de Norte para Sul, em direcção aos poços. A secção da zona terminal da galeria SPE 66 apresenta um alargamento na sua parte superior. Este alargamento constituí um possível vestígio de uma fase anterior da evolução da galeria. O términos conhecido da galeria SPE 66 é um poço parcialmente preenchido com água e de onde sai em direcção a Norte uma galeria que se encontra imersa.
A proximidade entre a gruta da Contenda e a gruta de Moinhos Velhos (que se estima seja de cerca de 100m no poço terminal da zona final da galeria SPE 66) leva a crer que as duas grutas estejam ligadas sendo parte integrante do mesmo sistema. Esta possibilidade havia já sido referida por C. Thomas, 1985. A ligação embora pareça iminente é difícil já que há que vencer uma zona inundada.

Fotografia aérea com a implantação da gruta de Moinhos velhos (vermelho) e Contenda (azul) Síntese de Topos: SPE,NALGA/AES
Os trabalhos realizados nos últimos dois anos, incluiram topografia, escalada subterrânea, levantamento geológico e culminaram com o espeloemergulho realizado em Setembro de 2008 onde se descobriu que zona terminal da galeria SPE 66 continua em direcção a Norte com a manutenção da morfologia da zona não inundada.
Aproveitamos para deixar aqui a topografia da zona terminal da galeria SPE66.
Cabe-nos ainda referir que os trabalhos realizados e especialmente o espeleomergulho apenas foram possíveis devido aos esforços de um conjunto de associações/grupos de espeleologia que referimos de seguida:
AES – Associação dos Espeleólogos de Sintra.
CEAE -LPN – Centro de Estudos e Actividades Especiais da Liga de Protecção da Natureza
NALGA – Núcleo dos Amigos das Lapas, Grutas e Algares
NEUA – Núcleo de Espeleologia da Associação Académica da Universidade de Aveiro

Aspecto da galeria junto da entrada
Resta-nos referir que a gruta da Contenda requer alguns cuidados na sua exploração, a maior parte do ano a galeria de entrada só é visitável até cerca de 200m da entrada, normalmente neste local forma-se um sifão que só abre naturalmente no final da primavera; se esta não for muito chuvosa, e após o poço (na bifurcação) na galeria norte existe um local onde por vezes está um lago, que em caso de chuva recebe uma recarga muito rápida que bloqueia a passagem rapidamente. Como tal em caso de previsões de chuva não se deve nunca visitar esta cavidade. Apesar de pela topografia a gruta parecer relativamente simples é um puro engano. Esta cavidade é bastante tortuosa com zonas de tecto relativamente baixo, constantes subidas e descidas com argila e água em muitos locais, talvez por estas razões ela ainda se encontre ainda em exploração…
Bibliografia:
Bogli, Alfred, 1980, Karst Hydrology and Physical Speleology, Springer-Verlag, Berlin Heildelberg New York.
G.; Manupella, M. Telles Antunes, C.A. Costa Almeida, A.C. Azerêdo, B. Barbosa, J.L. Cardoso, J.A. Crispim, L.V. Duarte, M.H. Henriques, L.T. Martins, M.M. Ramalho, V.F. Santos, P. Terrinha. (2000) – Carta Geológica de Portugal — Vila Nova de Ourém, Folha 27-A, escala 1 :50000, e respectiva Notícia Explicativa, Instituto Geológico e Mineiro, Lisboa.
C.Thomas, (1985) Grottes e algares du Portugal, Comunicar Lda. Lisboa
J. A. Crispim (1987): Evolução da Hidrologia Subterrânea na Gruta de Moinhos Velhos (Mira de Aire), Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, Sociedade Portuguesa de Espeleologia, ALGAR. Bol. Soc. Port. Espeleologia, 1:3-8 – Lisboa, 1987.
Martins, Alfredo Fernandes (1949), Maciço Calcário Estremenho – Contribuição para um estudo de Geografia Física. Tese de Doutoramento em Ciências Geográficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Coimbra
Osborne, R. Amstrong L. (2003) – Halls and Narrows: Network caves in dipping limestone, examples from eastern Australia.
Trudgil, Stephen,(1985). Limestone Geormorphlogy, Longman Group Limited, New York.
Carta Militar de Portugal à escala 1/25000, folha 318 – Mira de Aire (Porto de Mós) Edição 3 –2004, Instituto Geográfico do Exército












Quero dar os parabens aos NALGA e às outras Associações que têm colaborado neste projecto. Deviam-se realizar mais projectos deste tipo. Projectos concretos, com resultados publicáveis e publicados. Publica-se muito pouco em Portugal sobre Espeleologia.
ler todo o blog, muito bom